saudades.

terça-feira, julho 11, 2017

de passar por aqui. de pass(e)ar pelos vossos cantos. das minhas palavras, das vossas palavras. das palavras trocadas e das (re)criadas.


[Facebook killed the blog stars]
[onde escrevem vocês hoje?]

[3/2015]

sábado, janeiro 03, 2015


[2/365]

sexta-feira, janeiro 02, 2015

....
A part of me earth
A part of me sky
...

[1/365]

quinta-feira, janeiro 01, 2015


stop. reset. go.
que sejas bem-vindo 2015.

[5/365]

domingo, janeiro 05, 2014


[4/365]

sábado, janeiro 04, 2014


with the random sound of the day: Fake Empire, The National

Turn the light out say goodnight
no thinking for a little while

[3/365]

sexta-feira, janeiro 03, 2014




águ[ed]a a perder de vista.

no sound of the day today. random or not.

[2/365]

quinta-feira, janeiro 02, 2014



with the random sound of the day: Nantes, Beirut

And in a year, a year or so
this will slip into the sea

[1/365]

quarta-feira, janeiro 01, 2014



with the not so random sound of the day: Und wenn ein Lied, Söhne Mannheims

... alles bleibt unser gedanklicher Besitz
und eine bleibende Erinnerung
zwischen Tag und Nacht legt sich die Dämmerung

a continuação.

segunda-feira, setembro 02, 2013

e entra setembro e eis que nunca dele saí. e penso em tudo o que te queria ter mostrado, em tudo o que te queria ter dito, e em cada setembro que passa. e penso que passa tão rápido, mas dói ainda tanto, como se cada dia acrescentasse um grama de pressão sobre o meu coração. e já passaram tantos dias. e dói ainda tanto. e tenho um peso tão grande cá dentro. as memórias de tudo o que não te disse. de tudo o que já não pudeste ouvir.
fazes-me tanta falta.

001

domingo, novembro 04, 2012


se tanto me dói.

segunda-feira, junho 20, 2011


uma geração que se apaga. sinto-me, cada vez mais, muito longe das minhas memórias.

linhas.

terça-feira, outubro 19, 2010



havendo ausência das escritas, que haja pelo menos abundância das fotografadas.
(sei que tenho saudades das duas)

medo.

segunda-feira, outubro 04, 2010

volto muitas vezes à tua rua. só que cada vez mais é cada vez menos a tua, a nossa rua. quero dizer-te tudo ao mesmo tempo e o que te quero dizer corre mais do que eu posso, corre muito mais do que eu quero. as tuas portas, sempre cor de morango maduro, a descascar, brancas como a cal que usavas no pátio, e o pátio, o pátio está verde como as folhas de louro que tinhas nos fios da roupa, e os fios da roupa, esses estão por um fio. e tentei espreitar para o pátio [rodei o trinco, e fez aquele barulho, sabes] e rodou, e abriu. e existe agora um cadeado prateado, esse bem reluzente, a segurar o portão. lembro-me de tudo menos do cadeado. e esse zomba agora, brilhante e forte, de tudo o que me lembro. e eu queria espreitar porque me sentia forte [não há maior fantasma do que o da ausência, e esse já o conheço], e queria espreitar porque me sentia pequenina [e faltava a tua mão na minha].
tenho cada vez mais medo de não ter nada mais do que memórias para transmitir.

metade.

terça-feira, junho 15, 2010

é subir a rua, girar o puxador do portão, empurrá-lo com a mão na parte de cima. dá tanto jeito ser alta. sabes que quando o pintas ele emperra, e ajuda se o empurrar. e eu sou alta, noto-o quando chego ao pé de ti. dantes tinha de me pôr em bicos de pés, agora curvo-me. curvo-me para te abraçar. e as minhas costas ficam assim curvas como a metade de um coração, sabes? e hoje continuo a curvar-me para te abraçar. e quero empurrar o portão e entrar. e eu que sou alta, volto a pôr-me em bicos de pés. e sei que o portão já não emperra, e não tento girar o puxador. mas as minhas costas continuam a ficar assim curvas como a metade de um coração.


[I know you're there]

twenty.ten.

quinta-feira, dezembro 31, 2009

fecho a antiga. azul manchada de tinta no canto esquerdo.
o elástico bambo do uso. as páginas cheias de rabiscos.
já copiei os aniversários. já anotei algumas reuniões.
o final do ano lectivo.
já passei listas de coisas que ficaram por fazer.
[é mais uma continuação do que um re-início]
uma página para cada dia
[gosto de agendas grandes]
e tanto espaço em branco...

um bom 2010 para todos ....
.... que saibamos escrever as suas páginas da melhor maneira.

random thought.

domingo, dezembro 27, 2009

there are so many reasons why "we complement each other" is so much better than "you complete me"...

pre.liminares. (II)

quarta-feira, dezembro 23, 2009

começa com um olhar. curiosamente tímido. tão curiosamente tão tímido para alguém como nós. tão adulto em tantas línguas. continuam as palavras a fazer conversa entre si. as tuas. as minhas. as nossas [aquelas às quais já demos algum sentido especial, seja em que dialecto for]. pegas-me nas mãos e olhas atentamente os meus dedos [o pretexto já o tinha adivinhado - como é que eu sabia que irias reparar nisso - mas é curioso sentir os meus dedos suspensos dos teus]. puxas-me o brinco verde ao de leve entre duas inspirações. e entre silêncios e sons, brincas com a ponta do meu cachecol listado e dizes que é o meu favorito. eu aceno e penso que [observador] se calhar até tens razão. e brinco com a colher do café para não reparares no ligeiro tremor dos dedos.

( I )

feliz.idade.


tenho tantas tantas saudades.

do natal.

i can picture...

terça-feira, dezembro 08, 2009


comecei a fotografar para não perder o que [vi]via. transformava muitas coisas em palavras. mas nada dizia tanto da doçura de um olhar como um retrato, da vida de uma cidade como um instantâneo. sempre julguei que nunca iria esquecer determinadas coisas. as ruas da minha infância [que já não encontro por vezes no mesmo sítio]. o padrão dos azulejos da cozinha da minha avó [quebrado por alguns substitutos dissonantes]. o meu jardim secreto noutras paragens [onde passeava, longe tão longe, tão perto de mim]. as noites longas. mas cada vez que os vejo guardados por mim descubro emoções [esquecidas?]. não quero viver em [de?] imagens, mas quero ver para além delas o que já vivi. ontem apeteceu-me fotografar-te. não que tenha medo de me esquecer do teu rosto, mas porque sei que, tal como o primeiro beijo, a primeira vez que descobri que quando sorris ficas com covinhas nas bochechas é irrepetível.


bubbles.

sábado, outubro 24, 2009



perco-me vezes sem conta a olhar para coisas [in]significantes. os meus olhos são mais de criança do que os de muitos dos meus miúdos que, ano após ano, me chegam em fornadas cada vez mais requintadas, cada vez mais exigentes, cada vez mais intolerantes. se há coisa que não quero perder [nunca] é a faculdade do assombro. e o brilhozinho nos olhos.

qualquer dia...

quarta-feira, outubro 21, 2009

... ainda assistimos à proclamação de uma fatwa lusa contra o Saramago.

e os intolerantes são (só) os outros.....



...a propósito disto...

perguntas [I]

pergunta [ou o caminho que alguns tomam para chegar a este blog]:

como agarrar um homem pelas pré-liminares
(sic)

resposta:

pela alma



as good (as it gets)

terça-feira, outubro 06, 2009

...I think we have something special....

[I know we do]

voltou o outono...

segunda-feira, outubro 05, 2009

... e com ele a vontade de oferecer a minha face a cada gota de chuva.

sempre pensei que...

.... dançar pela rua à noite só acontecesse nos filmes.

kiss.me.

domingo, setembro 13, 2009

o filme era pouco relevante. facilmente esquecível. mas roubou-me um sorriso com este monólogo.

Life. What's life all about?
Love! Love, love, love, love. You want to be in love.

That's right. You want to feel that first kiss again.

Because that's the only real kiss in a relationship, is the first kiss.

All the rest of the kisses are just protocol.

Every other kiss is protocol. Just routine.

"Hey, you was gone, you back."
[kiss]
"Hey, we're having sex."
[kiss]
"Hey, I miss you."
[kiss]
The first kiss is the only real one.

And it always happens in the middle of a conversation.

You don't even know what they're talking about...

"And maybe someday I was thinking about trying to get the..."
[kiss]
Uhh.

The first kiss is always like double Dutch.

You just sitting there like, "When do I get in?"

"Oh, yeah! I'm kissing! I'm kissing, I'm kissing."


[double dutch. foto daqui]

o primeiro beijo ... dispara-se-nos o coração e o estômago centrifuga à 100 a hora. irrepetível. talvez a foto mais bonita que nunca conseguirei tirar. mas eu também sou um animal de rotinas. desde que sentidas :)

espera(nça)

quinta-feira, setembro 10, 2009

"não esperes" começava o bilhete "que sinta sempre um aperto no peito, o medo de te perder. não esperes grandes cenas de ciúmes, gestos aflitivos, noites sem dormir. dou-te o que é meu, as minhas mãos, palavras e sentidos. mas também a calma de quem (agora) sabe os seus limites. não esperes que para chegar até ti tenha de ir tão além de mim que já seja outrem. não esperes que eu seja mais fraca do que sou ou mais forte do que alguma vez irei conseguir ser. não esperes (mais) nada. e eu dou-me (a ti) em tudo." ele pousou-o e sorriu. e disse muito baixinho "também gosto muito de ti"


interjeições

sei que o meu aluno já se safa bem em português quando o ouço dizer "meu Deus" em vez de "mein Gott" quando acha alguma coisa complicada...

a continuação.

quarta-feira, setembro 02, 2009

vês como o tempo passa. ainda ontem era setembro, aquele vento leve que começa a tingir as folhas de vermelho anunciava-se. ainda se sentia o calor do verão e aqui o verão consegue ser mesmo sufocante enquanto que na minha rua sopra de vez em quando o cheiro a mar. ainda ontem era setembro quando pegaste na minha mão e não a querias largar. a minha ainda estava quente mas a tua escaldava. cada lágrima que caía quase se evaporava antes de tocar nela. eu lembro-me. não falei contigo mas senti cada palavra que me disseste em surdina. o teu ritmo cardíaco como código morse. eu lembro-me. quis dizer-te que sim, que também te amava como da primeira vez que te vi. que serias sempre a menina que dormia junto a mim nas noites de verão. lembras-te delas? eu lembro-me. vês como passa o tempo. ainda ontem era verão, ainda ontem era setembro e o setembro já voltou. se fechar os olhos sinto os raios do verão decrescente e o vento a dançar em redor deles. se fechar os olhos sinto a tua mão outra vez na minha, as tuas lágrimas a caírem em cima delas. se fechar os olhos, volto a querer tentar dizer-te, sem conseguir, que nunca te deixarei. estarei sempre contigo. sempre. fecha os olhos. consegues ouvir[-me] o vento?

[nunca vou deixar de ouvir]

r[ab]iscos

sexta-feira, agosto 14, 2009

um atraso de meia hora. e eu que chego sempre cedo de mais. da mala tiro um livro, uma caneta e o mp3. a banda sonora do Once no eco da Noiva Judia do Pedro Paixão, enquanto espero por ti. aos poucos deixo de olhar para o relógio. esqueço o ecrã luminoso das chegadas. e o tempo passa, rápido. muito. risco um guardanapo com palavras soltas que vão surgindo. e outro. e um terceiro. daqui a pouco estás aqui. senti a tua falta. tanta. mas também senti falta do tempo passar assim, ao som das letras rabiscadas no papel e dos acordes. tanta falta.

sol.dade.

sexta-feira, julho 31, 2009

li pouco. escrevi menos. quase não fotografei. trabalhei imenso. senti. vivi.

conto raspar as capas dos livros com a areia da praia. sujar as folhas de rascunho com creme bronzeador. tentar não deixar a máquina cair muitas vezes ao chão.

entro hoje de férias. que período bom para voltar a pensar.

god.be.with.you

os livros são (de) todos os dias.

quinta-feira, abril 23, 2009

passo os olhos pelas minhas estantes e contemplo volumes da minha biografia. é isso que os livros também são. para mim. o Pêndulo de Foucault foi recomendado pela professora de Português do 12ºano, altura em que devorei Os Maias de um trago e coloquei o Memorial do Convento na prateleira [até hoje]. já desisti por duas vezes do Absolom, Absolom, uma das obras de "Literatura Inglesa III", que ainda pertence aos meus 1990's. os volumes da Agatha Christie trazem nas suas páginas cheiro a mar, sol e grãozinhos de areia, dos dias na praia em anos de juventude.

passo os olhos pelas minhas estantes e encontro pedacinhos de mim em cada um deles.

mesmo naqueles que ainda não abri.

titulando.

a flier desafiou-me. e eu gosto de desafios :)

então é suposto "escrever uma frase, citar um título ou contar uma historinha sobre seis assuntos nos seguintes segmentos"... sendo hoje o dia do livro, um título que por aqui ande para cada item...

VIDA
"vai aonde te leva o coração". porque se não for com [o] coração, o que vale a vida?
CINEMA
"selected tales". gosto de filmes que me envolvam. que me virem do avesso. que me dêem um murro no estômago. sou selectiva :) [ou picuinhas]
LITERATURA
"a história interminável". uma citação deste livro que resume a minha paixão pela literatura: "todas as verdadeiras histórias são uma história interminável [...] há muitas portas para Fantasia, meu rapaz. há muitos outros livros mágicos." não há magia como ler. não há...
VIAGEM
"a volta ao mundo em 80 dias". se tivesse 80 dias e o euro-milhões...:)
AMOR
"persuasion". porque foi o primeiro passo. depois veio a confirmação.
SEXO
"olhos nos olhos". pele na pele. língua com língua.

conforto.

quarta-feira, abril 01, 2009

abro um dos livros que volto a trazer na carteira e dele cai uma folha para o chão. no topo esquerdo está escrito "sentimos o silêncio. e não nos incomoda...". e lembro-me pelas reticências que queria ter escrito mais. que queria ter explicado como o silêncio não intimida. não fica retido entre nós como um fantasma. que as palavras não são contidas. transpiramo-las naturalmente como gotas de suor. que por isso a sua ausência não é pesada. inspiramos e expiramos [n]as pausas delas.

despimo-nos de tudo. de segundas intenções. de temores. de máscaras. despimo-nos [um ao outro] pelas palavras.

e até quando nos despimos delas não nos sentimos nus.

ando por aí...

sábado, março 28, 2009

pé ante pé. antes de correr, temos de aprender a caminhar.

[ obrigada pelas vossas palavras a perguntar pelas minhas. aqui vêm elas, em pézinhos de lã novamente :) é estranho como o post anterior acabou por ser algo "divinatório" de um silêncio prolongado, de todo programado]

as palavras. (VII)

quinta-feira, fevereiro 19, 2009

sozinha no [meu] sossego do quarto sinto as palavras a redemoinhar à minha volta. vou-as apanhando uma a uma, aconchegando-as em ramalhetes simples, o mais simples possível. chamam-me da sala, onde as palavras dos outros me fazem, por momentos, esquecer a ordem das minhas. pego na caneta e só consigo escrever [vazio]. ponho as minhas coisas debaixo do braço e a meio do corredor já as sinto [às palavras], em pézinhos de lã, a voltarem comigo [para mim].

so[r]riso.


pode ser da alegria que tenho visto na cara dos miúdos, entusiasmados com os fatos de carnaval. pode ser pelo retorno do sol que levanta a moral logo ao acordar. pode ser pelas nette Besuche por aqui. pode ser por me lembrar das figuras que fizemos na sessão fotográfica deste dia. pode ser por achar que algumas amigas estão a precisar de um olá. apeteceu-me sorrir[-lhes] :)

f(r)ase.

segunda-feira, fevereiro 16, 2009

largava tudo pelas tuas mãos. e pela macieza das tuas costas.

[2001]

(a) caminho.

quarta-feira, fevereiro 11, 2009

posso não conseguir carregar contigo aos ombros porque és maior do que eu e nem ao David pediram para andar com o Golias às costas. agora como diz ali o Boss, se ficares para trás acredita que desacelero para me conseguires alcançar. em troca só espero que nessa tua pressa de chegares sempre a algum lado repares se não tropecei numa raíz mais saliente e me ajudes a levantar. sabes que ao contrário de ti trouxe para este percurso todos os mapas que tinha no baú. os dos caminhos já percorridos e os dos caminhos a evitar [cujos trilhos de certo modo se sobrepõem]. e as indicações meio confusas do território ainda não marcado. e por ser uma pessoa previdente [e se o que nos interessa é, além do destino, a viagem] muni-me de duas bússolas. uma vem na mala, a indicar o ponto de chegada. a outra [que vai mostrando o melhor rumo] guardei bem juntinho do coração. é do equilibrio das duas que vou escolhendo o percurso. não te admires se por vezes só te disser "direita" ou "esquerda". é porque o caminho é fácil e não é preciso complicar as indicações. e temos de nos entrosar como equipa. haverá decerto partes mais complicadas em que precisaremos de estar mais atentos. e vermos com calma onde pomos os pés.

sim(ples). (II)

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

começas por usar frases grandiloquentes repletas de lugares-comuns para me convencer de que sim tens uma predilecção especial pela minha companhia. keep it simple, digo-te eu. se demoras mais do que um minuto a explicar que gostas do calor do sol na tua pele quando tiveres acabado de falar já ele arrefeceu. uma noite seguras-me na mão e dizes-me quase num sussurro: sinto-me bem a teu lado. e o mais simples que consigo é responder-te com um sorriso.

eu.aleatoriamente.

como dizia à M., depois dos pecados capitais, vêm os pecadilhos. e os desafios têm vindo ultimamente da rua dela...

... ora bem, seis factos aleatórios sobre a minha pessoa ...
  • não tenho sapatos. [tenho calçado de toda a espécie. mas detesto sapatos.]
  • não sei conduzir devagar. [também não ajuda andar sempre cheia de pressa.]
  • quero fazer uma tatuagem. [mas só quando achar a ideal.]
  • quando observada coro. [como se não houvesse amanhã.]
  • adoro decompor palavras. [e recompô-las à minha maneira.]
  • estou sempre atenta e tenho uma óptima memória. [anything you say may be used... :)]

memory lane.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

saímos assim para o frio da noite. antes de qualquer outro movimento abotoo a gabardine até ao queixo e faço uma dobra complicada no lenço por cima dela. puxo-te o fecho do casaco até cima enquanto ajeitas melhor o teu cachecol. ficamos parados por uns segundos até que me decido. vem comigo. vou mostrar-te a minha infância. no silêncio do escuro só se ouvem os meus passos pelas ruas que conheço há mais dias do que os que já vivi. e tu a meu lado pé com pé, mão com mão. a noite entra-nos em humidade pelos poros. e nós diluimo-nos nela em baforadas de ar quente. virar à esquerda. à esquerda. depois à direita. os paralelos da entrada da rua sempre saídos. já é feitio. da esquina aponto-te aquela casa grande. as portas cor de morango maduro. e como se intuísses algo moves-me dois milímetros para mais perto de ti. em dez passadas estamos lá. digo-te que deixei uma parte de mim naquela casa. num certo dia de um certo mês de um certo ano. aponto para as duas janelas mais próximas de nós. a sala. e vejo os vidros embaciados. como se houvesse vida lá dentro. ou a casa respirasse por si. rodo um bocadinho para a direita e digo baixinho [ainda não sei como conseguiste ouvir] ali é o pátio. e no silêncio da rua ia jurar ter ouvido um clac. o trinco. um rrrrrr. a abrir devagarinho. e sinto que me abandonam as palavras. olho de uma ponta à outra da rua. uma eternidade num segundo. e de novo em frente. e sinto as palavras a afastarem-se cada vez mais. respiro fundo. e tu abraças-me mais forte. viro os meus passos para o início da rua. e tu demoras por uns segundos os teus, silenciosos. a tentar perceber se tinha ficado mais um bocadinho de mim naquela casa. ou se tinha vindo mais um bocadinho dela em mim.


- faz hoje 5 meses, vó. e nunca vou deixar de ter saudades tuas.
- thank you for being there with me, in this stroll down memory lane.

poderia.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

poderia falar dos teus dedos.
poderia descrever o teu sorriso embaraçado.
poderia dizer que os teus olhos são dois miúdos traquinas.

na verdade
prefiro esperar que o leias em mim.

da minha língua vê-se o mar.

terça-feira, janeiro 27, 2009

tenho um quotidiano confusa e claramente plurilingue. digo bom dia em inglês, respondo sem pensar a uma pergunta em espanhol com uma interjeição alemã. um segundo depois lá consigo recuperar a calma e a palavra mais adequada para o interlocutor em questão. uma conversa em português é perfeitamente complementada com expressões familiares em francês e surgindo determinados comentários em inglês o registo muda sem darmos quase por isso. no meio de tudo istp há conversas curiosas sobre as palavras, as línguas, a forma como elas se nos insinuam, a intensidade com que o fazem:
  • talvez isso te tocasse mais se fosse dito na tua língua...
  • não, não acho. já me disseram coisas semelhantes noutras línguas. o que importa é o que se diz, não tanto a língua que se usa. desde que se entenda.
mas, na verdade, fica-me a dúvida. será mesmo assim?


[intermezzo] (VI).


1. ando completa, arrebatada e perdidamente viciada nesta versão da If I should fall behind do Boss com a E-Street... [ e o Clarence a cantar .... ]

...
you and I know what this world can do
so let's make our steps clear that the other may see
and I'll wait for you
if I should fall behind
wait for me
...



eu. pecadora.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

a M. desafiou. e eu não resisto a desafios :)

então aqui vai a definição dos pecados mortais sugerida:
  • gula: comer a toda a hora e/ou além do necessário
  • avareza: cobiça de bens materiais e/ou dinheiro
  • inveja: desejar atributos, status, posses e/ou habilidades de outra pessoa
  • ira: é a junção dos sentimentos de raiva, rancor e ódio. por vezes é incontrolável
  • soberba: falta de humildade, alguém que se acha auto-suficiente
  • luxúria: apego aos prazeres carnais
  • preguiça: aversão a qualquer trabalho ou esforço físico
e a minha relação com os referidos :)


gula
um ferrero rocher. mordiscar ao de leve o exterior e deixar a língua brincar com o recheio . uma fatia de ananás acabadinha de cortar. fresca e levemente ácida, o sumo a escorrer. uma sopa de peixe caseira. o barulho dos quadradinhos de pão torrado estaladiços. um pastel de natal enorme. cremoso, faz cócegas na língua.
avareza
tenho mais olhos para comprar livros do que tempo para os ler. cobiço ardente e fervorosamente os que ainda não tenho. mas são os bens materiais mais imateriais que conheço. também contam?
inveja
das palavras dos outros. que parecem escritas por mim. das fotografias dos outros . que desejava que fossem minhas. de quem conhece mais línguas. e mais mundos.
ira
raiva. frequente. rancor. ocasional. ódio. (altamente) improvável. a ira nunca irá ser incontrolável em mim.
soberba
aviso que vou montar um candeeiro. sozinha. e que nem vai ser preciso olhar para as instruções. na primeira aparafusadela faço tudo mal (de tudo o que poderia ser mal feito.) volto ao início. acho que sim, sou presumida. mas a vida (ou os parafusos) encarregam-se sempre de me pôr no meu lugar.
luxúria
olhos a olharem olhos. olhos a olharem lábios. lábios a olharem lábios. dedos a olharem a curva de um pescoço. a contornarem o traçado de um peito. mãos com mãos. cheiros com cheiros. pele com pele. há olhares que causam arrepios. há toques que os prolongam. há beijos que os eternizam.
preguiça
alarme dispara cedo. sempre cedo demais. carregar no botão pausa. 5 minutos. o grito aflitivo. pausa. 5 minutos....levantar à hora a que devia estar a sair de casa...
preciso de algo que está noutra divisão mas como está tão quentinho aqui não me apetece levantar? é porque posso deixar para amanhã. e isso não é preguiça. é definição de prioridades e contenção de esforços.

a quatro mãos.

quarta-feira, janeiro 21, 2009



ela fazia-lhe perguntas estranhas. ele queixava-se da dificuldade mas oferecia sempre mais um bocadinho de si nas suas respostas. ela fazia malabarismo com a clareza e a duplicidade das palavras. ele sugeria escalas e pedia-lhe quantificações de sentidos. ela sorria com a maneira como ele enrolava o "h" no início das sílabas. ele reparou no verniz imperfeito do indicador direito dela. ele queria apreciar a vista do último degrau. ela avisou-o de que quanto mais alto se sobe, mais dói o trambolhão. ele disse-lhe que não a deixava cair.

[ela respirou fundo.]

eu.já.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

eu já...

  • amei em mais de uma língua
  • escorreguei e caí na neve
  • morei em mais de um país
  • apareci no jornal
  • chorei até me doer o peito
  • ri até ficar com soluços
  • cantei num coro
  • fui amada sem amar
  • amei alguém sem ter a coragem de lho confessar
  • deixei queimar um bolo
  • assisti a alguém morrer
  • copiei num teste
  • roí as unhas
  • implorei
  • tive uma exposição de fotografia
  • chorei no cinema
  • confiei
  • fui a melhor em alguma coisa
  • aprendi a escrever da direita para a esquerda
  • fui a muitos concertos seguidos do mesmo cantor
  • ganhei prémios
  • desconfiei
  • soube de coisas e agi como se não soubesse
  • fiz coisas de que me arrependi
  • me arrependi de não fazer coisas
  • peguei num livro e só o pousei depois de ter lido todas as suas 300 páginas
  • roubei
  • menti
  • andei à chuva até ficar ensopada
  • amei na rua
  • odiei
  • estive em 3 países diferentes em dois segundos
  • ...
...e parece-me que ainda fiz tão pouco.


[a febre desta lista de "já" já passou... mas eu gostei do desafio...]

espera.dor.



olhas através da vida como através de uma janela. contentas-te em ser espectador porque o papel de actor te parece trabalhoso demais. e traz consigo demasiados riscos. conformaste-te com tudo. o leite meio frio do pequeno-almoço quando não o tinham deixado ferver e demoravas a levantar-te; a meia amizade do João quando tinhas 14 anos e ele disse à Luísa que gostava dela, depois de tu lhe teres confessado que só conseguias ver os seus olhos ao adormecer, ao acordar; o abraço morno da tua namorada, não demasiado gélido para te congelar, mas quente de menos para te aquecer. no fundo, no fundo ainda sonhas vir a ser aquilo de que mais gostavas de te disfarçar no carnaval quando pequeno: super-homem. uma vida apagada. e, num rodopiar mágico, o homem mais forte do mundo. na verdade, na verdade sabes que nunca irás encontrar a tua cabine telefónica para mudar de pele.

um. brilhozinho.nos olhos.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

tenho sorrisos que batem [fundo]
das palavras que ecoam cá dentro [beijos]
do teu coração que te escapa pelos dedos [longos]
em gestos que traduzem os batimentos [doces]
que o teu coração não consegue [ainda]
dizer ao meu [........]
tenho palavras a brotarem-me dos dedos.
tenho sorrisos a brotarem-me da alma.



[com um brilhozinho nos olhos a pairar-me nos lábios desde o concerto do Sérgio Godinho.
hoje soube-me a tanto. portanto hoje soube-me a pouco]


as palavras. (VI)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

à custa de andar sempre à procura de talões, recibos, papéis e papelinhos para escrever comprei um caderno. metade liso, metade pautado. tamanho ideal [cabe milimetricamente na mala]. que sei que pouco irei usar. à custa de andar à procura de papéis pela carteira quando finalmente os encontro as palavras já estão maduras. caem sem custo na folha. encolhem-se em letras minúsculas para melhor se acomodarem entre a referência do produto e o IVA. o espaço e meio destas linhas [e o espaço livre destas meias páginas] causam-nos [ainda] o assombro de nem elas nem eu nos sentirmos maduras o suficiente para nos espraiarmos por ali.

passaram anos.

segunda-feira, janeiro 05, 2009


e porque há coisas para as quais só encontro as palavras dos outros... passaram anos, poderiam passar séculos... entendo o vosso rosto, passaram anos e ainda nos emocionamos, abrimos os álbuns de décadas passadas e as lágrimas coroam as memórias e os reencontros. há regressos que valem tudo. há regressos sem os quais não haveria passos em frente. há regressos que parecem nem ter nunca envolvido partidas.

amigo, não tenho perguntas para fazer-te, basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.

entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.

o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.

josé luís peixoto


beijinhos, meninos, tot ziens & bis bald :)

dú.vida. (II)

e eu confesso que fico pasmada. com a confiança. e a insegurança. e o imediatismo. e a paciência. e o charme maduro. e o brilho travesso. e a calma. e o nervosismo. e a páginas tantas nem sei se estou a falar de mim ou de ti. porque bambeamos ambos nesta corda quando estamos um com o outro.

silence. 2009

sexta-feira, dezembro 26, 2008

há pouco tempo comentava noutro blog em que se perguntava "o que fazer das canções que associamos a determinados momentos" que as poderíamos (quando ouvi-las já não trouxesse qualquer tipo de sentimento incómodo) juntá-las à grande banda sonora que todos temos, de certeza, na nossa vida. depois de responder isso, reparei em como tinha "recuperado" para a minha playlist dessa altura dois temas que já não ouvia há alguns anos, mas que pareciam fazer algum sentido naquele momento.

[ I'm here, I'm real, it's true, I do exist ]

[ dann schenk mir diesen Tanz ]

a estes dois veio juntar-se um terceiro, que acaba por complementar o meu mood actual...

[ sin miedo, las manos se nos llenam de deseos]

fica aqui este post [e estas músicas, é clicar na imagem :)] a desejarem-vos, a todos, um 2009 como quiserem. mas definitivamente bom. é um conceito à partida estranho. deixar músicas de décadas passadas numa mensagem de ano novo. mas estas são um bocadinho de mim. e aos amigos costuma-se dar aquilo que consideramos mais valioso. de e para nós. não interpretem uma possível ausência até ao início de 2009 como desinteresse. estarei simplesmente a viver. offline. acompanhada por estas músicas. e outras que entretanto possam surgir ou não. às vezes também é preciso.

feliz.na.vida[d].

terça-feira, dezembro 23, 2008

e ... eis que este blog também adere à animação versão natalícia lançada pela thunderlady.

e só apareço aqui assim, porque a rapunzel diz que é a minha spitting image: um cachecol ou lenço, a máquina sempre por perto. e os livros (conheço pelo menos uma pessoa que acharia que o mundo estava a acabar se eu não tivesse um livro) perguntam vocês? lembram-se de falar não há muito tempo de embrulhos de cantos muito regulares que deixavam adivinhar o que continham? ah pois. hoje já recebi o primeiro. e inesperado. [thanks ;)].

se a imagem pudesse falar desejar-vos-ia felicidade. hoje, amanhã, no natal, no próximo ano. como não pode, desejo-vos eu por escrito :)

pre.liminares. (I)

abres a porta do restaurante para eu passar. afastas a cadeira ligeiramente, e voltas a encostá-la depois de me sentar. dás a volta à mesa e sentas-te à minha frente olhando-me pela primeira vez nos olhos. a ementa treme-te ligeiramente nas mãos (não sou só eu que estou nervosa?), mas quando me perguntas o que quero e fazes o pedido ao empregado já pareces seguro de ti como sempre. enquanto a comida não vem falamos daquilo que na brincadeira já tínhamos alinhavado como temas de conversa. trabalho. tempo. rubores. eu que sou mais calada fico por momentos quieta (eu não te avisei que isso poderia acontecer?) e tu fazes o que prometeste: ficas a olhar-me tempos infindos, até que não consigo senão soltar uma gargalhada e atirar-te com o guardanapo. sim, acho que foi uma boa maneira de quebrar o gelo...

im.paciências.

sexta-feira, dezembro 19, 2008

o avião galga os últimos metros até à porta 71. ponto de paragem. ainda antes do aviso do comandante já os passageiros impacientes desapertam os cintos e abrem os compartimentos superiores. só o do lugar 20 C espera. que todos saiam. levanta-se ao ralenti. põe a mala do computador ao ombro e sai, despedindo-se das hospedeiras. uma breve olhadela ao ecrã. dirige-se à banda 3 para levantar a sua mala. pausa. longa. ainda demora muito? pergunta um menino dos seus 8 anos. deve estar aí a aparecer, diz a mãe, um tique nervoso no olhar. um, dois soluços e a bagagem começa a surgir. o passageiro do lugar 20 C encosta-se a um pilar e traça uma perna sobre a outra. mala a mala vão desaparecendo as pessoas pelo corredor. surge a sua. sem movimentos bruscos, pega-lhe e começa a rolar lentamente para a saída. as portas opacas abrem-se. olha brevemente, vira à esquerda, pára. em câmara lenta pousa a pasta do computador no chão, larga a mala. e desagua todo o nervosismo, toda a impaciência, toda a ansiedade, toda a espera, todos os longos minutos de todos os longos anos. num abraço forte.

my boys and girls.


1. os vossos pézinhos já cresceram. passaram poucos meses, mas os vossos abraços já subiram um palmo em mim. tinha saudades vossas, boys e girls, tinha tantas saudades vossas.
2. sim, mariana [num abraço daqueles teus apertados] também eu queria, minha querida, também eu queria tanto.
3. claro que me lembro do teu nome, íris. a menina mais ciosa do acento no sítio certo do seu nome que conheci [a seguir a mim, claro :)].
4. tu deixavas-nos ligar-te e desligar-te. oh bea, quem te ouvir dizer isto...
5. continuas o mesmo, menino dos olhos cor do céu, continuas o mesmo.
6. andré, só te queria dizer que tenho a tua foto no fundo do meu computador do trabalho. fazes-me sorrir sempre que o ligo.
7. nenhum de vocês vai ler isto. mas sei que sabem que gosto muito de vocês.
8. obrigada, meninos. obrigada a todos.
9. [agora deixem-me só ir ali buscar um kleenex].

dú.vida. (I)

terça-feira, dezembro 16, 2008

porque é que as palavras que mais se nos entranham não são as que esperamos ouvir de um determinado alguém mas sim as que, vindas de nenhures, nos surpreendem e deixam sem reacção?

[intermezzo] (V)

1. chego à aula do 1º ano e aviso-os logo de entrada com o ar menos sofredor que consigo..."vocês lembram-se da semana passada em que estavam quase todos doentes? pois bem, hoje é a minha cabeça que está deste tamanho [abro os braços a tal distância um do outro que não chega sequer para demonstrar 10% do som do martelo pneumático a ecoar cá dentro mas que os põe a todos de boca aberta e olhos arregalados]. logo queria pedir-vos se hoje conseguimos treinar a música de Christmas e fazer a ficha o mais baixinho possível." e ao mínimo som de um deles, virava-se um colega, "shiiiiuuu, olha a cabeça da teacher". isso e os beijinhos que o terrorista do Ricardo, a Beatriz e a Bruna me fizeram questão de vir dar mal acabei de falar salvaram-me a aula. e a Tânia a ir dizer no intervalo aos meninos do 4º ano, "falem baixinho que a teacher tem a cabeça muito grande hoje" também ajudou a salvar o dia. conseguem ser uns diabinhos quando querem, mas you gotta love them sometimes.

[intermezzo] (IV)

segunda-feira, dezembro 15, 2008

1. será que levo tudo muito a peito ou tenho demasiadas coisas no coração?

(background song... something in my heart goes pip, pip, pip....)

futil.idades

dizes que tens de começar a ter cuidado quando me perguntas detalhes sobre determinada situação do dia anterior e eu te respondo com uma fiel descrição da apresentação de x e das palavras comprometedoras de y mas surpreendes-me ao dizeres com toda a convicção que gosto de castanho, de cachecóis e que o meu verniz na quarta-feira tinha uma falha na unha do indicador da mão direita. e eu que sempre pensei que os homens não reparassem tanto nisso, mas à cautela mantive o dedo bem escondido na manga do casaco, just in case. estando habituada a ser a parte observadora de qualquer diálogo sinto-me por momentos debaixo de um microscópio. tenho de ter cuidado, sou eu que penso desta vez. acabas a conversa a fazer-me confidências as quais esperas que se mantenham secretas e dizes que só as fazes porque confias em mim. coro e agradeço-te a confiança. mas só consigo pensar que tenho de ter as unhas bem pintadas da próxima vez que estiver contigo.

sauda.de.

quinta-feira, dezembro 11, 2008


saudade
< Lat. solitate, com influência de saudar
s. f., lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; nostalgia.






acho que sempre tive saudades tuas.
mesmo quando não me lembrava de ti.

quando era natal.

quando era pequena íamos buscar musgo para fazer o presépio. era tarefa nossa, minha e tua. uma folha grande de papel pardo a proteger a alcatifa. camadas irregulares a desenhar vales e colinas. da prateleira mais alta do armário retirávamos caixas de linha âncora 6 branca presas com fita cola. com cuidado desembrulhávamos os restos de jornal e colocávamos as figuras em fila indiana. uma sem cabeça, outra sem cajado, dois reis magos inteiros e um estropiado, apesar da cautela do ano anterior. ali ficavam todas, silenciosas, à espera da guia de marcha para uma ou outra encosta. o estábulo. a estrela. um fio de luzes coloridas a serpentear à volta. a árvore já era tarefa só minha. tanto decorá-la como comer às escondidas os chocolates que lá eram pendurados por outras mãos. e voltar a dar forma (oca) à prata dos sinos e das pinhas. para que ninguém reparasse. quando era pequena do que eu mais gostava era do final da tarde do dia 24. as vossas vozes na cozinha, as vossas mãos a preparar a ceia. os cheiros que ainda hoje me gritam natal em qualquer período do ano. as luzes da sala apagadas. e eu, sentada ao lado da árvore e do presépio. fascinada com as cores. e o escuro. as cores. e o escuro. e as cores. e o escuro. e as vossas vozes. e as cores. e os cheiros. e tudo. acho que neste natal não consigo voltar a ser pequena. [e o escuro.]



há pequenos sons.

quarta-feira, dezembro 10, 2008

respondendo ao desafio deste gajo, que me convidava a agarrar no livro mais próximo, abri-lo na página 161 e copiar para o blog a quinta frase completa ... ao quinto livro aberto lê-se:

Há pequenos sons que assentam sobre o silêncio.

[José Luís Peixoto, Cemitério de Pianos]


e de tanto escrever sobre silêncio, pausas, momentos, palavras, sons...acho que não poderia ter "surgido" melhor frase para este desafio.


somos.

abro o livro que trago na mala numa página a três quartos da capa e leio algo sobre as certezas de sabermos quem somos na madrugada que construímos. com as nossas mãos e os silêncios entre as nossas palavras. e penso em todos os momentos em que me fiz depender das palavras de outrem. nas esperas por aquelas que só surgiam em momentos de fragilidade alheia. nos excessos de zelo que tornaram outras banais. nos silêncios gastos por tanta inquietude. nas mãos [o que mais recordo das pessoas que se cruzam comigo são as mãos. gosto de mãos. do que fazem. mais ainda do que poderiam fazer se cumprissem as promessas que trazem em si. ] que deixaram as minhas vazias. não dando nada. nem o seu calor. neste segundo em que me perco pela janela e sinto, mais do que vejo, o cair da noite sobre o caminho, penso em todas as palavras que não me foram ditas senão a custo ou repetidas até à exaustão. nos silêncios que a ausência delas poluiu. nas mãos repletas de toques sempre rasgados. e sei que não iremos ter pressa. nem medo. eu e tu. de pronunciar as palavras na altura certa. sejam quais forem as correctas para nós e seja o momento a estação que tiver de ser. porque nas nossas mãos (embora vazias) correm os gestos de que sabemos ser capazes. porque os nossos silêncios nunca serão ausentes de sentido nas madrugadas. porque tu e eu somos feitos de todas as pessoas que sentimos. de todas as que vivemos. e temos ambos consciência disso.



nas linhas. a teus pés.

quinta-feira, dezembro 04, 2008


saltas, balanças, fazes bailar os teus pés entre claro e escuro. a tua vida tem sido provavel e agradavelmente linear, sem as curvas bruscas ou inclinações acentuadas que marcam estações de dor. brincas com a geometria da vida, sem te deteres por mais tempo do que o necessário em qualquer dos seus momentos. aprendeste bem cedo a imprescindível arte do equilíbrio. parabéns, miúdo! o futuro? está à tua frente, desculpa não to poder mostrar... mas desejo que continues sempre assim. que os pretos nunca sejam demasiado escuros e os brancos não te encadeiem demais. não queremos que percas o teu percurso de vista não é? obrigada por este momento :)

[Dortmund, 17.06.2005]

as palavras. (V)

pedes desculpa por usar sempre as mesmas palavras para falar comigo. e eu nem te confesso que de cada vez que te ouço a mais simples delas me (des)faço em sorrisos.

sim(ples).

quarta-feira, dezembro 03, 2008

bilhetinho apanhado este ano.


1. menina ... elegante, elegante. [vai lá escrever umas 15 vezes no caderno].
2. para fazer (n)amor(o) ainda és muito nova.
3. se isto já vai assim agora, como será quando chegar a Primavera?
4. [*suspiro*].


e um do ano passado.


rui, gosto de ti por amor.
queres namorar comigo?

sim [ ] não [ ]



1. pergunta que se impõe ... a partir de que idade é que começamos a complicar as coisas?

diálogo. (VI)

terça-feira, dezembro 02, 2008

  • a amiga: e por falar nisso, já falaste com ele?
  • ela: não. mas também não quero. está mais do que na hora de virar essa página de vez.
  • a amiga: ainda está aberta?
  • ela: hum ... está com uma beira dobrada.

[soube tão bem fazer uma leitura a dois corações das páginas, dos capítulos e dos livros das nossas vidas. dos que lemos num ápice. daqueles em que nos perdemos. dos que se perderam em nós. (e daqueles que querem ser lidos). temos de pôr assim a leitura em dia mais vezes. ]

anda morder-me. o coração.

segunda-feira, dezembro 01, 2008

do lado oposto da sala, fitas com interesse um ponto ligeiramente acima do meu ombro esquerdo. [os teus olhos acariciam o contorno de um pescoço, de um colo emoldurado a preto e branco].

do lado oposto da sala fechas o livro que tens na mão, pousa-lo com cuidado no braço do sofá. [algumas palavras ficam agarradas. levar-te. aos dedos. à boca.]

do lado oposto da sala cruzas a perna direita por cima da esquerda com ar indolente. [retesam-se os músculos das tuas coxas. todas as tuas terminações nervosas em alerta]

do lado oposto da sala fixas o teu olhar ocioso nos meus dedos nervosos. [e esticas os teus devagar, para deles disfarçar a inquietude]


do lado oposto da sala dizes anda, anda morder-me o coração.

e o outro lado da sala oposto ficou. de repente. no lado oposto. da sala.



(a frase anda, anda morder-me o coração lida em Morder-te o coração, de Patrícia Reis.)

hoje.

sábado, novembro 29, 2008

estive para deixar passar o dia de hoje sem palavras (minhas). mas não resisti a alinhavar um balanço. sim, admito. tive medo deste número. 30 é demasiado redondinho para não assustar. mas chego a este ponto e confesso que gosto (mesmo) de quem (me) vejo. lembro-me deste dia há dez anos atrás. de onde estava, das pessoas que estavam comigo. restam-me duas (erinnert ihr euch, c. und l.?) que mais de perto ou mais de longe me foram acompanhando. gosto muito (gosto cada vez mais) de vos ter na minha vida.

e o facto é que, desde então...

tive professores fantásticos e alunos inesquecíveis. amei e fui amada. sofri e fiz sofrer. parti e vi partir. vivi em partes quase iguais em dois países. cresci em cada um deles. de formas diferentes. em línguas diferentes. descobri o prazer de fotografar. que sei que ficará para sempre comigo. li vidas e vivi histórias que davam livros. conheci pessoas extraordinárias. que acreditam no vento e no imprevisível. que sentem as palavras como eu as sinto. que, apesar de terem vivências completamente diferentes, me compreendem e desafiam. esqueci e descobri o prazer das palavras. perdi pessoas que amava, desde que a vida é vida e desde que eu sou gente. tive medo, muito, de perder pessoas que amo desde a mesma altura. (nunca me senti tão impotente para proteger quem me é querido). descobri a fragilidade e a fortaleza. resgatei forças que não sabia que tinha. depois de ter perdido coisas que nunca teria suposto vir a perder. verti muitas lágrimas. e surpreendi muitos sorrisos. encontrei o prazer da alegria espontânea com amigos. e revi-me a mim própria tantas vezes nas solitárias palavras sentidas de desconhecidos. deixei partes de mim para trás. e fiquei mais forte por as ter querido deixar. descobri que nunca, mas nunca mais, irei abdicar de coisas que fazem de mim quem eu sou. para completar alguém. decidi-me muitas vezes pelo "road less taken" e. embora pudesse ter evitado alguns dissabores caso não o tivesse feito. nunca poderia de outro modo estar aqui. agora. a dizer: venha mais uma década. i'm ready :)


[este balanço ficou longo. posts assim só para daqui a dez anos, prometo :)]


trilog.ia.

quinta-feira, novembro 27, 2008

e lá vai começar o meu mundo. guten morgen! novamente. again. a desenrolar-se em três línguas diferentes. numa cadência regular. 3 to 5 times a week. qualquer dia preciso. good afternoon. de um dicionário. wörterbuch. para me entender a mim própria. be quiet. a sorte é que. eins zwei drei. no meio disto tudo. sit down. há-de haver sempre alguém que me entenda. gute nacht.

pecado.


alimentavam-se das histórias alheias, do que supunham adivinhar num olhar, num gesto.
escrevi eu por aqui um dia destes. dei-te isto a ler. o desafio velado. esquadrinhas bem alguém. de certeza. pelo que diz. ou faz. o desafio directo. então lê-me. o que viste tu nas linhas do meu rosto hoje? (d)escrevi-te. isto. e isto. e mais aquilo. e talvez isto. assustador, disseste tu. assustador? sim. certo. e certo. e certo. e reparas na mais pequena palavra. é a vantagem, de se ser uma boa ouvinte, respondi eu. (ou uma falante tímida, esqueci-me de acrescentar). então tenho de ter muito cuidado com o que digo. não precisas, respondi. eu não sou má pessoa.

[mas não te confessei. o meu maior pecado. que é sorver(-te) as palavras. e surripiá-las para aqui].

branduras.

terça-feira, novembro 25, 2008


eu calo. tu calas. nas pausas falam(-nos) os brandos gestos.

(problema de) expressão.

[sabias que]. naquele tempo a tua voz tinha um tom difuso. as palavras eram algo trocistas. como se não fossem suficientemente claras. para o que querias dizer de ti. nos silêncios sempre te ouvi melhor. nos silêncios a língua que não falávamos era nossa. [sabes que]. hoje a tua voz arrisca novos sons. numa língua (tão tua) e noutra (só minha). entre as tuas palavras que entretanto aprendi. e as minhas que agora, cada vez mais, recordas. deixemos as línguas falar no silêncio por nós.

coração.

segunda-feira, novembro 24, 2008

.... seguindo o teu raciocínio de como a língua portuguesa funciona, coração seria máquina de amar....

[...faz sentido. quando lhe pomos pouco amor é um desperdício de energia, quando lhe metemos amor a mais é uma sobrecarga...]

sonho.

domingo, novembro 23, 2008

e pronto, quando um gajo qualquer nos desafia até parece mal não responder.

vou-me limitar a escrever a lista de oito coisas de sonho. quem quiser, sinta-se convidado a fazer o mesmo.

sonho (não há ordem nos sonhos)...

1. ver as pessoas que estão no meu coração felizes e saudáveis.

2. ter uma casa com uma "biblioteca". um espaço para os meus livros. um sofá confortável.
3. viajar. à Irlanda (viagem prometida há muito, nee sis'?). ao resto da Europa que ainda não conheço. daí à conquista do mundo. gastar a bateria da máquina a fotografar. e os cadernos a registar memórias e impressões.
4. ser feliz. por mim. encontrar a pessoa que me fará mais feliz. por partilhar a sua vida comigo. e a quem farei feliz. por estar a seu lado.

5.
ter um trabalho que me realize e desafie. ok, se calhar, o meu :) mas que seja estável.
6. morar perto do mar. ou ter pelo menos uma casita por lá :)
7. continuar a ter a amizade das pessoas que estão "aqui" para os sorrisos, as palhaçadas, as lágrimas, as paranóias. das que (se) importam.
8. seria pedir demais....ganhar qualquer coisita no euromilhões? é que dava j
eito para alguns dos outros sonhos...



mão.

sábado, novembro 22, 2008

despedes-te de mim com um gesto de adeus. e levas-me na palma aberta da tua mão.

[intermezzo] (III)

1. é inevitável. não há sábado de manhã sem sol. a janela aberta de par em par.
2. nem sem estes senhores. em repeat mode por aqui.

well it's been a long time, long time now
since I've seen you smile.

and I'll gamble away my fright.

and I'll gamble away my time.
and in a year, a year or so,
this will slip into the sea.

3. imagens em directo da neve europeia. palavras do calor do hemisfério sul. é bom ter amigos espalhados pelo mundo. à distância de um click.
4. day one. de uma nova morada. minha.

menina.

sexta-feira, novembro 21, 2008

sabes que fico com pele de galinha cada vez que te ouço arredondar as vogais de menina quando me dizes olá?

same time. same place.

passavam a hora de almoço assim, sentadas naqueles degraus. já todos os amigos sabiam onde encontrá-las. 5 dias por semana. same time, same place.
preferiam mordiscar maçãs a ir almoçar com os outros. para melhor observarem as pessoas. alimentavam-se das histórias alheias, do que supunham adivinhar num olhar, num gesto.
e aquele? combinou com os amigos. mas tem medo que eles não esperem, é sempre o primeiro a chegar. por isso caminha assim, como se receasse que tudo, incluindo os passos que dá, lhe fujam. aquela loira de azul, ali no meio do grupo, tem um fraquinho pelo rapaz de vermelho. mas se o de castanho a abraça... sim, mas repara que quando o de vermelho fala, o olhar dela parece corar e desvia-se para as mãos dele...
levavam sempre um livro na mochila. abriam-no solenemente, após a primeira trincadela na maçã. duas páginas (ou dois parágrafos depois) uma dizia algo e os olhos da outra fugiam das palavras. pousavam os livros no colo. semi-abertos, com um dedo a marcar a página. até este ser preciso para dar ênfase a qualquer palavra mais sentida.
eram tratados filosóficos em movimento. o tempo? é um ovo. definitivamente. o verão e o inverno as suas curvas mais largas, as noites demoram-se mais. das de verão não queremos ver o fim. no inverno, elas não se querem finalizar. nos pólos, as folhas do outono caem rápido de mais para as apanhar. e as flores desaparecem em frutos quando ainda não nos tínhamos habituado a elas.
sofriam frequentemente de coincidências de pensamento. quando uma dizia mata, a outra já tinha começado a esfolar. os segredos de uma eram os segredos das duas. aliás, não havia segredo que se escondesse por muito tempo aos olhos da outra.
nunca foram assim tão parecidas. os amigos (os mesmo, mesmo amigos) conheciam-nas bem. mas todos os outros as confundiam. como se de passarem tanto tempo juntas se tivessem tornado numa unidade. com dois nomes.
à custa disso ficaram irmãs. para a vida.

haja silêncios.

segunda-feira, novembro 17, 2008


haja silêncios como houve hoje luz dourada. aquecia o vento que não se sabia em novembro. fechei os olhos e só havia o calor. da luz. no meu rosto. disseste já não te lembrar de como era belo. o mar. o céu. o sul. e o silêncio [o teu ao ver a praia. e o da praia ao não te sentir ali.]

quando eras pequena.

domingo, novembro 16, 2008

quando eras pequena trepavas para o ramo mais próximo da nespereira e dependuravas-te sobre o muro alto, num desiquilíbrio ameaçador. mas sorrias. nessa idade os fascínios superam os medos. lembro-me de ti sempre a sorrir, o cabelo liso, as faces sempre coradas das correrias, as batas sempre sujas das brincadeiras. contavas-me que gostavas de andar no baloiço, porque ao subir, cada vez mais alto, com cada vez mais balanço, te sentias chegar mais perto do teu avô. que diziam velava por ti como um anjo no céu. andavas sempre de volta das papoilas, encantava-te o vermelho rubro delas, mordiscavas o caule durante horas. quando eras pequena deixaste de dormir à tarde como as outras crianças. não conseguias, simplesmente. não sei se tinhas medo que não te fossem buscar ou se te confundia nessa altura já o dormir enquanto ainda havia luz. de noite os sonos são mais calmos, dizias-me com a certeza dos teus 4 anos. quando eras pequena pintavas malmequeres com os dedos mas fazias questão de assinar o teu nome com lápis de cor (que agarravas sem prática mas com convicção) com todas as letras, como gente grande. pedias todas as noites que te contassem histórias que já tinhas ouvido vezes sem conta. e encontravas encantos em cada palavra, como se fosse a primeira vez. quando eras pequena ias ao canteiro dos morangos, no tempo deles, escolhias um mais vermelhinho, esfregava-lo na manga da camisola e trincavas, milímetro a milímetro. sabias que tanto podia ser já doce como ainda amargo. mas que se não arriscasses nunca lhe saberias o sabor.

chave.

sábado, novembro 15, 2008

procuro a chave do baú pelas gavetas da escrivaninha. sempre escondi as coisas que me resguardam nos sítios mais improváveis. tão incertos que nem eu própria lhes encontro o rasto. a calma transforma-se em ânsia. os dedos inquietos amarfanham, abrem, reviram, retorcem. encontro-a no meio de clips coloridos. tão habilmente escondida. ou tão banal(izada) como eles. clic. rodo-a no cadeado. desliza muito mais ligeira do que os meus sentidos. inspiro. das colunas sai a thunder road em repeat mode: you can hide 'neath your covers, and study your pain, make crosses from your lovers, throw roses in the rain. expiro. e abro a tampa. só queria guardar as coisas que me ficaram de ti. o primeiro batimento cardíaco precipitado. a primeira palavra surpreendida. a primeira nudez envergonhada. (as últimas já não me pertencem. as últimas não pertencem a ninguém). ali. num instante fico rodeada de sorrisos amarelecidos e palavras rasgadas. there were ghosts in the eyes, of all the boys you sent away. o chão um mar de papéis esfacelados, sentimentos cansados, gestos fora do prazo de validade. e eu a flutuar. tento separar cada capítulo. ordenar. lembro-me das palavras de alguém numa noite. de como as histórias da nossa vida se fundem. por mais que as tentemos conter. num espaço e tempo. desisto. e junto-te às outras. fecho a tampa. guardo a chave numa caixa de agrafos. respiro fundo. a tempo de ouvir os acordes finais. and i'm pulling out of here to win.

diálogo. (V)


  • ele: tu que és gaja, não me arranjas aí um manual para entender as mulheres?
  • ela: falam, falam das mulheres mas olha que os homens ... complicadinhos...
  • ele: homens são fáceis
    a maior parte quer: sexo
    perdão
    todos querem: sexo
    depois há uns que pensam: OK, quero sexo mais vezes
    e outros que pensam: uma vez foi suficiente

linhas.

quarta-feira, novembro 12, 2008


troco os passos nos espaços desta cidade. caminho incógnita pelas ruas, consciente somente do ponto de partida e do nome, que te marca, tatuado no pedaço de papel, cheio de setas, exclamações e sublinhados (tinhas medo que não reparasse nele?). ninguém me conhece. (já) não reconheço ninguém. vasculho as esquinas à procura da tua rua. não ficava tão longe da linha, não tão perto da igreja. volto atrás e reescrevo os meus passos. uma, duas vezes. lembro-me de uma faia num jardim vizinho. os ramos quase tocavam a janela do teu quarto. dizias que o vento à noite te arranhava os vidros com eles. passo por carros, sinto luzes a passarem por mim. lembro-me desta ponte. ali, naquele banco (parece ter sido ontem) sorriste e desejaste-me boa viagem. apresso o passo. naquela esquina, emprestaste-me um livro que nunca te devolvi. à entrada daquela casa (reconheço-a agora, ainda tenho a chave guardada num porta-chaves qualquer) trocámos, pela primeira vez, olás, nomes, e sorrisos. daqui os meus pés já conhecem o caminho, de olhos fechados. traço longo, risco, traço curto, risco, curva, traço longo, risco, traço longo... abro os olhos e estou diante da tua porta. sinto, sem olhar, a sombra da faia do lado direito. penso em todas as palavras que nunca te disse e em como elas ainda queimam, tanto tempo depois. em todos os gestos que treinei na tua ausência, para nunca (o)usar em ti. inspiro. um passo. inspiro. toco à campainha. numa eternidade que não dura mais de dois segundos, abres. o tempo acrescentou linhas, grão e ruído ao retrato que tenho de ti. (estás diferente). os teus olhos continuam brilhantes e travessos. (estás igual). [silêncio]. pegas nas minhas mãos e dizes-me, sem deixares de me olhar nos olhos, sê bem-vinda.

instante(s).

domingo, novembro 09, 2008


um telefonema. da distância.

um sorriso. (re)conhecido.
olhares. relembrados.

as palavras. sobre as nossas palavras.

a confiança dos outros. em nós.

os amigos. à distância. dos dedos.

[é bom ter instantes de domingo assim...]


[war sehr schön, mit dir zu plaudern :)]

[intermezzo] (II)

sábado, novembro 08, 2008

1. sábado de manhã. o sol a entrar, sem pedir licença, pela janela aberta de par em par. do local de trabalho. em novembro.
2. uma música em repeat (encore une fois): A Sunday smile you wore it for a while...
3. 250 GB de recordações num disco externo. que não apetece organizar.
4. um dedo a passar pelo papel rugoso das palavras de Frost: The woods are lovely, dark and deep, But I have promises to keep, And miles to go before I sleep, And miles to go before I sleep.
5. os minutos vão passando assim, sem dar por isso ... daqui a pouco já é fim de semana...



[sim, eu sei que isto assim nem soa a trabalho....]

adágio.

[acompanhar com Barber's ...]
  • Adágio for Strings


  • os primeiros acordes espalham-se como neblina pela sala. alastram pela casa vazia. de olhos fechados (nunca o ouviu de outro modo) toma-a de assalto. a mão direita vai ondeando segura com movimentos leves pelo ar. conhece todos os passos, antecipa-se a cada crescendo. a esquerda aperta ainda a chávena de chá fumegante. por dentro das pálpebras vai surgindo uma curta metragem surda. dedos. maçãs verdes. mãos. tapetes. olhos. palavras. dentes. livros. almofadas. cálices. jogos. sonhos. sombras. recorda-se de ler que só nos lembramos do amor e de paixões deste modo assim, fragmentário. [00'12''] memórias do primeiro beijo, aquele a sério que torna as pernas bambas e o estômago num furacão de borboletas. [00'40''] indefinidas e confusas recordações de homens que a tomaram. memórias de homens a quem amou, uma primeira vez na distância [01'17''], e uma segunda vez na proximidade [03'52'']. o vapor do chá vai subindo (faz cócegas no nariz) ao mesmo tempo que a mão direita se continua a elevar ao som da música. [05'11''] "tu", numa exclamação de surpresa que leva os seus dedos bem acima da linha da sua face. o único, de todos os homens que a tocaram, que nunca lhe pediu nada em troca. para além das suas mãos. e por isso lhe deu tudo e nada. num momento.


    [07'05''] pausa. presente. a mão suspensa no ar.


    e que por isso se tornou charneira. entre o passado e um futuro [07'13''] que usa os mesmos acordes porque ela não sabe viver de outra forma. [10'17''] abre os olhos. e o tom verde neles é, desta vez, simplesmente de esperança. nos dias. e em quem eles trouxerem.

    diálogo. (IV)

    • ela: deves ser o meu primeiro amigo gajo assim
    • ele: deves ter andado a conhecer as pessoas erradas

    há quem diga.

    sexta-feira, novembro 07, 2008


    há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em estar desocupado. ou em não estar ocupado por ti. é estranho, mas o certo é que, desde que saíste de casa, o gladíolo voltou a florir. o dia amanhece mais radioso, ou os vidros das janelas a nascente parecem mais transparentes do que quando tu as abrias de par em par. perdeu-se o som dos teus passos a subir a escada, dobrar a esquina e abrir a porta do quarto com a impaciência dos eternos insones. mas, no silêncio que cobre cada canto, seja no bulício do dia ou no sossego da noite, ouvem-se rumores de vida a renascer. a aldraba da porta não cessa de bater por dedos amigos que trazem no olhar palavras de outrora. juro-te que até os livros que tínhamos colocado na estante de canto ao lado da lareira se meneiam encantados quando ninguém está por perto. não sei por onde andas, só sei que de teu na tua poltrona favorita só ficou a suave linha do braço direito para onde tombavas quando adormecias e a foto que nela te tirei um dia e que me fizeste prometer nunca mostrar a ninguém. hoje peguei num bloco de notas, numa das canetas mais suaves que tenho, sentei-me no teu lugar e recordei palavras que não acariciava desde que te beijei pela primeira vez. há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em não estar ocupado por ti. e eu, desde que reencontrei palavras que tinham estado adormecidas há demasiado tempo em mim, começo a concordar.

    diálogo. (III)

    • ele: eu sou
      o teu reality show preferido
      não sou?
    • ela: definitivamente....
      mas só porque eu não vejo televisão.

    me. by the boss.

    Seguindo o desafio indirecto da minha querida Rapunzel, aqui vai a minha vida em títulos de canções. Foto não será necessária [quem quiser alguma que peça ;)]. Já há duas por cá, e sempre ouvi dizer que os olhos são o espelho da alma. Também não desafio directamente ninguém . Be my guest :)
    • Cantor:
      Bruce Springsteen
    • És homem ou mulher?
      Give the girl a kiss
    • Descreve-te:
      All that heaven will allow
    • O que as pessoas acham de ti?
      Magic / Spirit in the night
    • Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento?
      Blinded by the light
    • Descreve o estado actual da tua relação com o teu namorado ou pretendente:
      A good man is hard to find
    • Onde querias estar agora?
      Secret Garden
    • O que pensas a respeito do amor?
      All or nothing at all
    • Como é a tua vida?
      Leap of faith
    • O que pedirias se pudesses ter só um desejo?
      From small things (big things one day come)
    • Escreve uma frase sábia:
      It’s hard to be a saint in the city

    [intermezzo] (I)

    quinta-feira, novembro 06, 2008

    1. um beijo. de parabéns. do tamanho do mundo. para o primeiro homem. da minha vida. o meu pai. só não conseguiu que fosse do benfica. de resto partilhamos as mesmas paixões. e o mesmo temperamento :)
    2. yes, we can. acredito. quero acreditar (num mundo melhor). porque tenho pessoas a quem dou beijos do tamanho do mundo. e o mundo tem de começar a valer os beijos que dou.
    3. e porque acredito em sonhos. e acredito em pessoas que acreditam em sonhos. e acredito que pessoas que acreditam em sonhos merecem sempre ser felizes. espero que sim.
    4. d., és capaz de ser responsável pelo piropo mais surreal. que recebi nos últimos tempos. é bom ler-te de volta, mon ami :)

    .... o blog segue no seu formato habitual dentro de momentos .....

    diálogo. (II)

    quarta-feira, novembro 05, 2008

    • ela: mas qualquer dia dá-me na telha e faço isso
    • a amiga: não tens grande coisa a perder
    • ela: não tenho
      só tenho de engolir o orgulho
      e de momento...
      devo estar com amigdalite
      não consigo

    houve.


    houve um tempo em que não tínhamos medo de qualquer caminho. em frente, abrindo o peito às palavras e às lâminas, seguíamos. dedos em dedos, flanco com flanco. houve um tempo em que sermos nós chegava. para avançarmos pelos trilhos, ou recuar pelos atalhos. houve um tempo em que o destino se revelava ao virar de cada esquina. no transbordar de qualquer encruzilhada. houve um tempo em que nos bastava. ser o tempo e sermos nós.
    hoje o tempo transborda de lâminas que abrem o peito como palavras. hoje há atalhos que se viram nos dedos, seguem e, de medo, rasgam os flancos. hoje o destino avança no tempo em trilhos que recuam. toda e qualquer encruzilhada, neste tempo, já basta para o tempo deixar de ser o tempo, para nós deixarmos de sermos nós.
    (e isso) basta.

    diálogo. (I)

    terça-feira, novembro 04, 2008

    • ela: estou a arrumar a vida e o quarto
      que confusão
      mais no quarto
    • ele: se precisares de ajuda na vida avisa