o fim. o inicio.

sexta-feira, setembro 19, 2008

Acabou o meu verão. Acabaram as férias (de infância). Não por este ano mas para o resto desta vida. Fui há duas semanas a casa da minha avó. Chorei ao abrir a porta da despensa. E comparar o que vi com a imagem que tenho no meu computador. Os tachos continuavam reluzentes, mas faltava vida a tudo. Sentia-se uma aridez, um frio tremendo. Como se com a morte dela tudo aquilo em que ela tocava normalmente se tivesse resignado, deixado estagnar. A embaciar de dor.
Nada diz mais que uma pessoa morreu do que abrir, escancarar os móveis que dantes se abriam, devagarinho, sem fazer barulho e para onde se espreitava com a curiosidade ingénua das crianças. Separar posses. Distribui-las por sacos plásticos. Virar gavetas do avesso. Desmembrar guarda-fatos...
Sempre senti aquela casa como se fosse parte de mim. Conheço-a de cor. Cada rebordo, cada canto, cada esquina.
Lembro-me daquelas noites quentes de Verão (sim, quando era criança o verão ainda era quente) em que o vento sapateava pela rua do Pedaço acima e se lembrava de entrar pelos postigos da sala. Fazia rodopiar as cortinas que lançavam sombras longas pela casa. Irremediavelmente levantava-me, ia espreitar o silêncio da rua, sorver o calor do vento. E fingia ser tudo entre sala e quarto. Princesa, heroína, meretriz, mártir, feliz, infeliz.
Acordar de manhã com os barulhos do Pedaço. A mota do vizinho. A padeira. Os pregões da peixeira. O barulho da cafeiteira para aquecer o leite a pousar nos bicos do fogão. Aquele fogão pequeno entre o borralho gigante e a chaminé imensa. O cheiro da pomada e spray para os ossos. Aquele cheiro de limpeza absoluta e carinhosa que se lançava de cada superficie. As vizinhas a abrirem o portão, a passarem pelo pátio e a entrarem: "Precisas disto? Vou ali ao mercado e..". "E a menina?" "A menina está a dormir."
E a menina já tinha acordado. E voltado a adormecer. E escutava deliciada as conversas da rua.
Sempre me fascinou a vida assim. Toda a gente nos conhecer. Ver-nos crescer. Alternar entre beijinho na bochecha e festinhas no cabelo. A amizade. O companheirismo. Se uma vizinha estava doente, as outras faziam fila à porta dela para se oferecerem para toda e qualquer tarefa. Sempre me fascinou a troca de pratos de arroz doce em dias assinalados. A broa de abóbora.
As tuas amigas, colegas de carteira e de porta fazem parte do meu imaginário de infância também. A senhora Maria Pinta e a sua casa sempre branca com debruns verde forte. A Rosa Rebola e os suspiros, sequilhos e fusis. A Gilda, com o rádio eternamente ligado. A senhora Leonilde e o senhor Joaquim, que sempre me pareceram, desde pequena, um casal de gnomos bondosos. E tantos, tantos outros.
Lembras-te daquele senhor capitão baixinho, que andava sempre de boina e tinha uns olhos mais azuis do que quaisquer que vi até agora? Como ele fingia que me vinha fazer cócegas quando eu estava ao portão para eu correr para dentro a gritar e a rir ao mesmo tempo? Não me recorda o nome dele...como era, vó?
Nunca soubeste que eu tinha um fraquinho pelo Nélson. Esse da casa em frente. Que o ouvia virar para a rua, à noite, à distância, e me ia pespegar ao postigo para não perder um instante. O barulho da chave na porta. O ranger da porta no soalho. O arrastar. clac clac. A luz do quarto que se filtrava pela persiana permanentemente (mal) fechada. Esperava mais 5 minutos até a calma regressar. Às vezes sentava-me ainda por breves momentos, a apreciar o silêncio. Só quebrado pelo relógio da cozinha (que se ouvia em toda a casa) que agora marca incessantemente as horas aqui ao meu lado.
Lembro-me dos cheiros todos. Do refogado que atravessava o pátio e vinha ao meu encontro mal abria o portão vinda de qualquer recado. Da sopa de feijão inchado. Do arroz doce. Da pá do leite creme a queimar o açúcar e a canela. Do Omo que gostavas de usar para lavar a louça, até a minha mãe te convencer do virtuosismo do SuperPop Limão. Do louro pendurado no fio do pátio. Do café levezinho da tarde. Dos cachorros que fazias com pão, manteiga quente e salsicha.
Cheirava tudo...cheirava tudo a amor. A emoção.
Já te disse que tudo ganhava vida nas tuas mãos? Não só as panelas que tanto areavas. Tudo. A renda. A roupa presa a secar. Tudo...Até as andorinhas voltavam todos os anos para o teu pátio não para te chatearem, mas porque gostavam de ti. Nunca te disse esta, pois não avó?
Senti, naquela tarde de segunda-feira, que se me acabava o verão. Não há mais rádio da Gilda, o Nélson (casado e com filhos) há anos que já não mora ali, longe vão os suspiros e cada vez mais raros são os pratos de arroz doce. As faixas verdes da casa da senhora Maria desbotaram. Está para venda. O senhor capitão....ainda eu era pequena e ele já tinha morrido. Não morrem os olhos azuis na minha memória.
Já não há histórias de antigamente. Já não ouço as anedotas do teu café. Quem é que tinhas atado ao pé da mesa ao certo? :) Já não ouço as vizinhas a perguntarem se precisas de algo nem o toque da padeira. Já não vou aparar o pão há séculos. A minha mãe tem alguns dos sacos de pão lá em casa. Aqui soa o relógio, vela a tua mantinha e estendem-se as passadeiras.
O meu verão morreu. Já te tinha dito? Não importa que não o passasse aí em casa nos últimos anos. Não interessa que, ultimamente, nem tu lá estivesses. O meu verão, a minha infância, era, e sempre foi, aquela casa, os sons, os cheiros, os sabores, e tu.
Morreste avó...mas juro que te vi sorrir na foto em que preguei os olhos a caminho do cemitério. Eu e as minhas primas com as chaves na mão. Não queria ir, sabes...
Quando me despedi de ti apertei-te a mão e ela estava quentinha e macia. Como sempre. Desde que sou gente lembro-me sempre de ti assim, vó.
Nunca te cheguei a dizer que te amava pois não? Nunca o ouviste? Mas sabia-lo.
Nem acredito que o meu verão acabou (assim)...