as palavras. (IV)

sexta-feira, outubro 31, 2008

por elas, através delas, com elas fazemos tudo.

e elas fazem tudo de nós.

alternativa

acabei de descobrir um local em aveiro onde passam filmes que realmente me chamam a uma sala de cinema (os que não fazem parte dos cartazes da Lusomundo e aqueles que nunca ninguém quer ir ver connosco). como agora te compreendo, violet, tenho de me mudar para a capital para irmos fazer companhia uma à outra nas salas de cinema ...


quem quer vir? :)

as palavras. (III)

quinta-feira, outubro 30, 2008

um dia disse isto:

acho que os meus momentos de decisão são marcados por coisas que escrevo. pode parecer estúpido mas tem sido assim...

e responderam-me:

nao é nada estúpido! é assim mesmo...

e eu fiquei a pensar:

e se algum dia me faltam (as) palavras? (para quem está tão habituada a sentir com elas)

little people.

- Teacher, sorri.
- Ahn, what Gonçalo?
- Sorri. Faz um sorriso.
(desnecessária descrição da minha tentativa de sorrir sem perceber aonde o rapaz queria chegar)
- Ah, tens um dente de vampiro. É por isso que sorris pouco.
- .....


(Ao menos o miúdo é observador. Para aluno do 1º ano nada mau. A referência aos vampiros é decerto por estarmos a falar do Halloween, cof cof )


- Oh, Teacher.
- Diz, Inês.
- As tuas unhas estão muito bonitas. Como pintas, com marcador?
- ....


E pronto. Fora os momentos em que me apetece seguir a máxima de uma mãe ("ele vai para a sala com duas orelhas, faça uso delas") eles até conseguem ser engraçados, imprevisiveis e queridos. Às vezes. Mas não se pode sorrir muito, senão o Gonçalo abusa.

little things.

quarta-feira, outubro 29, 2008

hoje deram-me um tazo (um hiper raio n 150), um beijo muito repenicado e levaram-me a mala até à sala.
little people do strange cute little things :)

7.30

terça-feira, outubro 28, 2008

abro a porta do prédio e mergulho na manhã. o ar frio faz-me cócegas no nariz. subo o fecho do casaco até ao queixo e estico as mangas até me taparem as pontas dos dedos. dou uns dez passos. entro no carro. respiro fundo e ligo o rádio. dez minutos depois o sol ergue-se para lá do Caramulo, atravessa a neblina e rebrilha no fio de água que vai no Vouga. o rádio vai debitando:

I used to roll the dice
Feel the fear in my enemies' eyes
Listened as the crowd would sing
Now the old king is dead, long live the king
One minute I held the key
Next the walls were closed on me
And I discovered that my castles stand
Upon pillars of salt and pillars of sand


e eu penso na (suprema) ironia da vida. e sorrio. gosh, it feels great to be alive.


recado. (I)

segunda-feira, outubro 27, 2008

Querido M.

Tens o jantar no fogão. A roupa está passada e pendurei a camisa no armário para não se enrodilhar. A conta da luz deve chegar amanhã. O resto já está tratado.

Beijo

A.

P.S.: Tens aqui a chave do correio. Lá encontrarás as chaves de casa e no envelope azul pequenino vazio o que resta do meu amor por ti.

maiores que o pensamento.

domingo, outubro 26, 2008

e porque este fim de semana foi por demais pródigo em momentos mágicos, instantes de alegria, gargalhadas e descobertas, cumplicidades e conhecimentos ..... e como não me parece que lhes conseguisse sequer fazer justiça com as minhas palavras, aqui ficam as de outrem....

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,

Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

(Alexandre O'Neill)


[eu sei que já vos disse isto ontem mas .... meninos... vocês estão cá dentro ;)]

as palavras. (II)

sexta-feira, outubro 24, 2008

(palavras! palavras talvez sejam o meu vicio maior)
se me potencias o vicio
potencias-me a alma.



[estas não são minhas. mas são para mim].


pontes de vista.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Em dois posts seguidos este senhor (que gosto imenso de ouvir e pelo qual saio sempre uns minutinhos mais cedo da aula da manhã para o "apanhar" ainda em linha) fala de três dos meus filmes favoritos, que contêm em si referências a três paixões: fotografia, cinema, poesia (literatura).

De um destes filmes são as primeiras citações que coloquei ali na minha "ever-updating" barra lateral de preferidos: "As Pontes de Madison County".

E diz o escriba:

Confesso que não me lembro muito bem das Pontes de Madison County. Das brumas saem as ditas, que achei belíssimas, o meu querido Clint, último e fiel depositário de um certo cinema e tipo de actor, o desempenho intocável de Meryl e a sua mão crispada na porta de um automóvel.

"A" cena ... o momento que nos toca a todos, acompanhando como vimos a acompanhar o encantamento crescente dos dois, os toques, a luz, o encontro dos corpos.

Deve ser difícil encontrar quem, caso se tenha sentido tocado pelo filme, não tenha encarnado numa ou noutra personagem: quem não tenha sentido a chuva a escorrer-lhe pelo rosto, enquanto franzia os olhos para olhar, guardar na sua memória (fotográfica) a mulher que, a dois passos, contempla pela última vez ... ou quem, num espaço recolhido, familiar, definido, mas circundado pela indefinição, sem contornos, pelo embaciamento causado pela chuva (que o toca a ele, mas não a ela) crispa a mão na porta enquanto pesa e avalia e decide...


Juízos de valor? Fazemos sempre. Opiniões a favor? Temos, não é possível evitar. Não conseguimos não ter, tal como não resistimos a encantar-nos com tudo o que esteja relacionado com as nossas mais secretas, mais intimas, mais humanas, mais frágeis aspirações. Os filmes que nos ficam mais na memória são sempre aqueles que nos oferecem a imensa potencialidade cinematográfica de uma paixão sumptuosa, de um amor (seja qual for a sua forma), de nos ser dado tudo incluindo a escolha dilacerante entre as várias partes de nós.

O fulcro da questão é o habitual... - deixar ou não um amor tranquilo por uma paixão avassaladora. Em trinta anos de profissão ouvi descrever as duas decisões e os trajectos subsequentes. Há quem fique por cobardia, pelos outros, por considerar que a paixão não resistirá ao quotidiano e um dia se assemelhará ao afecto deixado para trás. Há quem descubra não estar talhado(a) para a vida de casal, embora tenha pressionado o outro para o (a) seguir. Muitos dos julgamentos de valor a que assistimos partem do pressuposto que viver a paixão à custa de tudo o resto é quase uma "obrigação ética". Não concordo e a História também não. Acho perfeitamente legítimo resistir às consequências práticas de uma paixão e aos 58 já percebi que somos muito injustos para o amor tranquilo, chegamos a confundi-lo com monotonia e desistência!

Concordo consigo, caro professor, em discordar desse pressuposto. Não será mais emocionante abrir a porta, correr, através da chuva, de encontro a quem, estático, se nos oferece? Sem dúvida. E era neste ponto que o filme acabava. Dir-se-ia "they lived happily ever after", apareceriam os créditos, a música do final...Mas como na vida real, não há paixão que por si própria resista, sem amor, sem o calor do conhecimento, não existe paixão que, posta à prova pela realidade, pela rotina, não se desvaneça e nos decepcione.
A paixão pode ser eterna. Como memória. De outra forma desgasta-se. O amor é eterno. Como realidade.

Ela diz a certa altura que foi pela lembrança dele que conseguiu permanecer na quinta tanto tempo. Admissão de que cometeu um erro? Não. Também é pela esperança de concretizarmos os nossos sonhos que vivemos cada dia, sejam eles pequenos, enormes, materiais ou espirituais... É por carregarmos connosco memórias de pessoas que passaram pela nossa vida, que nos sentimos acompanhados, parte de algo maior do que nós. É por relembrar momentos que vivemos, que descobrimos quem somos e o que queremos.

Não serão as Pontes mais um exemplo da tradição ocidental de considerar
perfeitos apenas os amores interrompidos por morte ou distância.

Sem dúvida. Por isso se trata de um óptimo filme. E de um péssimo manual de vida.

mãos.

terça-feira, outubro 21, 2008

Teu corpo,
Meu porto,
No teu peito,
Me revivo.
Mãos anseiam,
Pela pele.
Sustêm.
Suspiro. De dor.
Prazer. Ardente.
Sustêm.
Eu respiro.
Inspiro.
Suspiro.
Teu corpo.
Em mim.
Eu expiro.
Eu grito.
Meu peito.
Tuas mãos.
Tua pele.
Meu corpo.
Em mim.
Tu anseias.
E perdes-te. Em mim.

tempo.

segunda-feira, outubro 20, 2008

era tempo. de fugir às curvas sombrias do silêncio na minha pele. era tempo. de guardar as memórias, trancadas bem longe do peito. era tempo. do brilho voltar aos olhos, da ternura desgastar a frieza dos dedos, a rigidez dos lábios. era tempo. de voltar a ser terra e voltar a ser ave, tendo tanto raízes como o desígnio da lonjura. era tempo. do fogo, da combustão lenta de tudo o que sobreviveu. ao vento do outono agreste.

foi tempo. da luz da manhã e do voo das gaivotas.

é tempo. de recomeçar.



ponto.

"este instante, agora, será o teu passado.
este instante, agora, será o meu futuro"
(José Luís Peixoto)

maior que o pensamento.

sábado, outubro 18, 2008

Sabe bem ver que mudámos. Que crescemos. Que tomámos decisões. E aceitámos as consequências. E as responsabilidades. Que arriscámos. Que saímos não só do nosso casulo, mas do país, do continente até, à procura de nós próprios. E que, se ainda não achámos tudo o que queríamos, encontrámos, pelo menos, partes de nós que desconhecíamos. No caminho.

E sabe bem ver que ainda sorrimos com histórias de directas inenarráveis. De serenatas desafinadas aos vizinhos às 3 da matina. De café fora do prazo de validade para ajudar a concentrar no trabalho (tanto que uma adormeceu e tu saltaste pela janela do teu rés do chão e foste dar a volta ao quarteirão a correr).

7 anos... como o tempo passa. E sabe bem ver que a amizade se mantém, apesar da distância e se calhar cresce com o nosso crescimento, a nossa maturidade.
E soube muito bem falar de Deus e de gin tonic, de livros e de spray para mosquitos, do tudo e do nada.


E sabe muito mesmo muito bem. ter amigos assim.


(eu sei, é pegar no avião e....)

nos olhos.

sexta-feira, outubro 17, 2008

I never quite understood the expression "feeling blue". In such occasions, my hazel eyes always turned into emeralds, never sapphires.

o silêncio.

quinta-feira, outubro 16, 2008

a folha, branca. há horas que aguarda, paciente. mas as palavras fogem. encolhem-se. é noite. de silêncio. os primeiros sinais de vida lá fora. o silêncio. as minhas mãos. vazias. repletas de nada. prenhas de tudo. da madrugada à manhã. e o silêncio. os meus dedos pequenos. os meus braços longos. e os meus olhos, que de castanhos se enverdecem. com o segredo. e o silêncio. e algumas palavras. três, quatro palavras. pouco mais. lançam raízes na alvura da folha. e quebram. por momentos. o silêncio.


[nasce o dia. tu. estou (sempre) aqui.]

nocturne (a duas mãos).

A minha primeira e única tentativa de escrita colaborativa até hoje :)

sob o espectro invisível do falso silêncio da noite, procuro, antes de mim, a vida e momentos de doce enleio. procuro estradas em que possas existir para lá do âmago da carne e em que eu te sinta como minha solene fuga à escuridão do ser e ter de ser. pensei que a luz era sombra viva no teu corpo que demora, que me afoga, e o teu afago carícia, doce e decidida, que pressinto ou imagino, anseio como nenhuma verdade em fúria sobre mim. e recuso com amor, com temor de ser infinitamente imperfeito. sendo feito para ser incompleto. não durar mais do que o tempo em que me esqueço e me invento e me finjo uno e pleno junto a ti.

(15 de Março de 2005, com Daniel Camacho)

em mim.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Porque um dia me disseram que esta quadra parece escrita para mim...

Em mim tenho o mundo inteiro
e mais que tudo as estrelas

é procurá-las no céu

o que me impede de vê-las.


(Agostinho da Silva)

as palavras. (I)

sábado, outubro 11, 2008

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Sempre tive livros.

A minha família (pais, primas, tios..) teve, em vários natais e aniversários, a brilhante ideia de me entregar uns embrulhos, muito bem feitos, de cantos direitinhos e bem definidos que, sem surpresas, deixavam adivinhar o seu conteúdo (um livro) mas abriam todo um mundo de possibilidades: será um livro de quem? sobre quê? e as personagens? que aventuras conta?

Também herdei vários livros das minhas primas (eu sou a mais nova, é natural que acabasse por herdar muita coisa :)) deixados ao acaso em casa da minha avó.
O que encontrei devorei sempre com sofreguidão. Acompanhei as peripécias da Anita, as aventuras d'Os Cinco e d'Os Sete, as desventuras da Cláudia, segui as gémeas, o Chico, o João e o Pedro n' Uma Aventura de cada vez.

Um dos meus livros favoritos da adolescência ainda ocupa um lugar de destaque no meio do caos organizado que é o meu repositório de livros. Chamava-se qualquer coisa como "Os meus quinze anos", falava de poesia, de paixões platónicas (como convinha a essa faixa etária) mas com a promessa de serem correspondidas num futuro não tão longínquo.

Num determinado aniversário as minhas primas (Deus as abençoe pela brilhante ideia) ofereceram-me dois livros da Agatha Christie. Aqueles da Vampiro Gigante, com palavras por vezes incompletas por falha de impressão, alguns erros de tradução que tanto prazer dão a corrigir e expressões que só se encontram nestas edições. Delírio. Acabaram por lançar algo em marcha que só terminou no verão passado: finalmente consegui completar a colecção, 40 volumes.

Na altura, para não ter de esperar pelo próximo aniversário, comecei a frequentar a biblioteca cá do burgo. E, para além de várias aventuras do Poirot, da Miss Marple, do Superintendente Battle, do Tommy e da Tuppence, começaram a ir comigo para casa uns volumes brancos, fininhos, de poesia, que estavam sempre disponíveis na biblioteca (nunca ninguém os requisitava?) e uns maiorzinhos, que traziam consigo a vida e o calor de outra parte do mundo.

Assim segui, num dos meus primeiros livros de "gente crescida" a complicada mas fascinante saga dos Buendía, através de cem anos de soledad. E assim me encantei por Gabo e, por inerência, por mais alguns autores que conseguem transmitir as cores, os sons, os odores da literatura latino-americana.

E assim descobri Eugénio de Andrade. E descobrir Eugénio com 14/15 anos é algo de fascinante. O poder evocativo das palavras, as sensações que ansiamos por descobrir e vemos ali, no papel; e como fazem eco na persona que vamos construindo e em que nos vamos tornando. E os poemas que líamos com os olhos arregalados, com a inocência, o desejo e a curiosidade. E a forma como há sempre um conjunto de palavras dele, um poema, que se encaixa em determinados momentos da nossa vida, como se tivesse conseguido, a priori, fazer um instantâneo dessa ocasião. E as palavras. A importância das palavras.

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

São três, quatro palavras. Pouco mais.

into the wild. into ourselves.

domingo, outubro 05, 2008

comecei a vê-lo carregada de cepticismo :) ... acabei a lacrimejar ... fascinou-me tanto que foi dos primeiros filmes que pus na lista aqui ao lado.
há uma frase, quase no final, que me encantou. não a encontro nas citações, não a encontro em lado nenhum, acho que terei de ver novamente o filme para a (re)conhecer. talvez seja melhor assim.
um amigo lembrou-me há 3 dias do encanto da banda sonora deste filme (obrigada Jota) e desde então que estas músicas me perseguem.

when you want more than you have, you think you need...

late at night I hear the trees, they're singing with the dead / Overhead...

there’s a big / a big hard sun / beating on the big people / in the big hard world ...



God's place is not all that we need, Christopher. you realised it. but just a second too late.