poderia.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

poderia falar dos teus dedos.
poderia descrever o teu sorriso embaraçado.
poderia dizer que os teus olhos são dois miúdos traquinas.

na verdade
prefiro esperar que o leias em mim.

da minha língua vê-se o mar.

terça-feira, janeiro 27, 2009

tenho um quotidiano confusa e claramente plurilingue. digo bom dia em inglês, respondo sem pensar a uma pergunta em espanhol com uma interjeição alemã. um segundo depois lá consigo recuperar a calma e a palavra mais adequada para o interlocutor em questão. uma conversa em português é perfeitamente complementada com expressões familiares em francês e surgindo determinados comentários em inglês o registo muda sem darmos quase por isso. no meio de tudo istp há conversas curiosas sobre as palavras, as línguas, a forma como elas se nos insinuam, a intensidade com que o fazem:
  • talvez isso te tocasse mais se fosse dito na tua língua...
  • não, não acho. já me disseram coisas semelhantes noutras línguas. o que importa é o que se diz, não tanto a língua que se usa. desde que se entenda.
mas, na verdade, fica-me a dúvida. será mesmo assim?


[intermezzo] (VI).


1. ando completa, arrebatada e perdidamente viciada nesta versão da If I should fall behind do Boss com a E-Street... [ e o Clarence a cantar .... ]

...
you and I know what this world can do
so let's make our steps clear that the other may see
and I'll wait for you
if I should fall behind
wait for me
...



eu. pecadora.

sexta-feira, janeiro 23, 2009

a M. desafiou. e eu não resisto a desafios :)

então aqui vai a definição dos pecados mortais sugerida:
  • gula: comer a toda a hora e/ou além do necessário
  • avareza: cobiça de bens materiais e/ou dinheiro
  • inveja: desejar atributos, status, posses e/ou habilidades de outra pessoa
  • ira: é a junção dos sentimentos de raiva, rancor e ódio. por vezes é incontrolável
  • soberba: falta de humildade, alguém que se acha auto-suficiente
  • luxúria: apego aos prazeres carnais
  • preguiça: aversão a qualquer trabalho ou esforço físico
e a minha relação com os referidos :)


gula
um ferrero rocher. mordiscar ao de leve o exterior e deixar a língua brincar com o recheio . uma fatia de ananás acabadinha de cortar. fresca e levemente ácida, o sumo a escorrer. uma sopa de peixe caseira. o barulho dos quadradinhos de pão torrado estaladiços. um pastel de natal enorme. cremoso, faz cócegas na língua.
avareza
tenho mais olhos para comprar livros do que tempo para os ler. cobiço ardente e fervorosamente os que ainda não tenho. mas são os bens materiais mais imateriais que conheço. também contam?
inveja
das palavras dos outros. que parecem escritas por mim. das fotografias dos outros . que desejava que fossem minhas. de quem conhece mais línguas. e mais mundos.
ira
raiva. frequente. rancor. ocasional. ódio. (altamente) improvável. a ira nunca irá ser incontrolável em mim.
soberba
aviso que vou montar um candeeiro. sozinha. e que nem vai ser preciso olhar para as instruções. na primeira aparafusadela faço tudo mal (de tudo o que poderia ser mal feito.) volto ao início. acho que sim, sou presumida. mas a vida (ou os parafusos) encarregam-se sempre de me pôr no meu lugar.
luxúria
olhos a olharem olhos. olhos a olharem lábios. lábios a olharem lábios. dedos a olharem a curva de um pescoço. a contornarem o traçado de um peito. mãos com mãos. cheiros com cheiros. pele com pele. há olhares que causam arrepios. há toques que os prolongam. há beijos que os eternizam.
preguiça
alarme dispara cedo. sempre cedo demais. carregar no botão pausa. 5 minutos. o grito aflitivo. pausa. 5 minutos....levantar à hora a que devia estar a sair de casa...
preciso de algo que está noutra divisão mas como está tão quentinho aqui não me apetece levantar? é porque posso deixar para amanhã. e isso não é preguiça. é definição de prioridades e contenção de esforços.

a quatro mãos.

quarta-feira, janeiro 21, 2009



ela fazia-lhe perguntas estranhas. ele queixava-se da dificuldade mas oferecia sempre mais um bocadinho de si nas suas respostas. ela fazia malabarismo com a clareza e a duplicidade das palavras. ele sugeria escalas e pedia-lhe quantificações de sentidos. ela sorria com a maneira como ele enrolava o "h" no início das sílabas. ele reparou no verniz imperfeito do indicador direito dela. ele queria apreciar a vista do último degrau. ela avisou-o de que quanto mais alto se sobe, mais dói o trambolhão. ele disse-lhe que não a deixava cair.

[ela respirou fundo.]

eu.já.

sexta-feira, janeiro 16, 2009

eu já...

  • amei em mais de uma língua
  • escorreguei e caí na neve
  • morei em mais de um país
  • apareci no jornal
  • chorei até me doer o peito
  • ri até ficar com soluços
  • cantei num coro
  • fui amada sem amar
  • amei alguém sem ter a coragem de lho confessar
  • deixei queimar um bolo
  • assisti a alguém morrer
  • copiei num teste
  • roí as unhas
  • implorei
  • tive uma exposição de fotografia
  • chorei no cinema
  • confiei
  • fui a melhor em alguma coisa
  • aprendi a escrever da direita para a esquerda
  • fui a muitos concertos seguidos do mesmo cantor
  • ganhei prémios
  • desconfiei
  • soube de coisas e agi como se não soubesse
  • fiz coisas de que me arrependi
  • me arrependi de não fazer coisas
  • peguei num livro e só o pousei depois de ter lido todas as suas 300 páginas
  • roubei
  • menti
  • andei à chuva até ficar ensopada
  • amei na rua
  • odiei
  • estive em 3 países diferentes em dois segundos
  • ...
...e parece-me que ainda fiz tão pouco.


[a febre desta lista de "já" já passou... mas eu gostei do desafio...]

espera.dor.



olhas através da vida como através de uma janela. contentas-te em ser espectador porque o papel de actor te parece trabalhoso demais. e traz consigo demasiados riscos. conformaste-te com tudo. o leite meio frio do pequeno-almoço quando não o tinham deixado ferver e demoravas a levantar-te; a meia amizade do João quando tinhas 14 anos e ele disse à Luísa que gostava dela, depois de tu lhe teres confessado que só conseguias ver os seus olhos ao adormecer, ao acordar; o abraço morno da tua namorada, não demasiado gélido para te congelar, mas quente de menos para te aquecer. no fundo, no fundo ainda sonhas vir a ser aquilo de que mais gostavas de te disfarçar no carnaval quando pequeno: super-homem. uma vida apagada. e, num rodopiar mágico, o homem mais forte do mundo. na verdade, na verdade sabes que nunca irás encontrar a tua cabine telefónica para mudar de pele.

um. brilhozinho.nos olhos.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

tenho sorrisos que batem [fundo]
das palavras que ecoam cá dentro [beijos]
do teu coração que te escapa pelos dedos [longos]
em gestos que traduzem os batimentos [doces]
que o teu coração não consegue [ainda]
dizer ao meu [........]
tenho palavras a brotarem-me dos dedos.
tenho sorrisos a brotarem-me da alma.



[com um brilhozinho nos olhos a pairar-me nos lábios desde o concerto do Sérgio Godinho.
hoje soube-me a tanto. portanto hoje soube-me a pouco]


as palavras. (VI)

quarta-feira, janeiro 07, 2009

à custa de andar sempre à procura de talões, recibos, papéis e papelinhos para escrever comprei um caderno. metade liso, metade pautado. tamanho ideal [cabe milimetricamente na mala]. que sei que pouco irei usar. à custa de andar à procura de papéis pela carteira quando finalmente os encontro as palavras já estão maduras. caem sem custo na folha. encolhem-se em letras minúsculas para melhor se acomodarem entre a referência do produto e o IVA. o espaço e meio destas linhas [e o espaço livre destas meias páginas] causam-nos [ainda] o assombro de nem elas nem eu nos sentirmos maduras o suficiente para nos espraiarmos por ali.

passaram anos.

segunda-feira, janeiro 05, 2009


e porque há coisas para as quais só encontro as palavras dos outros... passaram anos, poderiam passar séculos... entendo o vosso rosto, passaram anos e ainda nos emocionamos, abrimos os álbuns de décadas passadas e as lágrimas coroam as memórias e os reencontros. há regressos que valem tudo. há regressos sem os quais não haveria passos em frente. há regressos que parecem nem ter nunca envolvido partidas.

amigo, não tenho perguntas para fazer-te, basta-me
olhar. passaram anos, poderiam ter passado mais
anos ainda. poderiam passar séculos.

entendo o teu rosto. isso basta-me quando te vejo.
para mim, serás sempre o príncipe, a criança que
me mostrou as árvores.

o tempo não passou, amigo. agora, ao chegares,
olho para ti. o teu rosto é igual. agora, ao chegares,
sei que nunca partiste.

josé luís peixoto


beijinhos, meninos, tot ziens & bis bald :)

dú.vida. (II)

e eu confesso que fico pasmada. com a confiança. e a insegurança. e o imediatismo. e a paciência. e o charme maduro. e o brilho travesso. e a calma. e o nervosismo. e a páginas tantas nem sei se estou a falar de mim ou de ti. porque bambeamos ambos nesta corda quando estamos um com o outro.