as palavras. (I)

sábado, outubro 11, 2008

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.

Sempre tive livros.

A minha família (pais, primas, tios..) teve, em vários natais e aniversários, a brilhante ideia de me entregar uns embrulhos, muito bem feitos, de cantos direitinhos e bem definidos que, sem surpresas, deixavam adivinhar o seu conteúdo (um livro) mas abriam todo um mundo de possibilidades: será um livro de quem? sobre quê? e as personagens? que aventuras conta?

Também herdei vários livros das minhas primas (eu sou a mais nova, é natural que acabasse por herdar muita coisa :)) deixados ao acaso em casa da minha avó.
O que encontrei devorei sempre com sofreguidão. Acompanhei as peripécias da Anita, as aventuras d'Os Cinco e d'Os Sete, as desventuras da Cláudia, segui as gémeas, o Chico, o João e o Pedro n' Uma Aventura de cada vez.

Um dos meus livros favoritos da adolescência ainda ocupa um lugar de destaque no meio do caos organizado que é o meu repositório de livros. Chamava-se qualquer coisa como "Os meus quinze anos", falava de poesia, de paixões platónicas (como convinha a essa faixa etária) mas com a promessa de serem correspondidas num futuro não tão longínquo.

Num determinado aniversário as minhas primas (Deus as abençoe pela brilhante ideia) ofereceram-me dois livros da Agatha Christie. Aqueles da Vampiro Gigante, com palavras por vezes incompletas por falha de impressão, alguns erros de tradução que tanto prazer dão a corrigir e expressões que só se encontram nestas edições. Delírio. Acabaram por lançar algo em marcha que só terminou no verão passado: finalmente consegui completar a colecção, 40 volumes.

Na altura, para não ter de esperar pelo próximo aniversário, comecei a frequentar a biblioteca cá do burgo. E, para além de várias aventuras do Poirot, da Miss Marple, do Superintendente Battle, do Tommy e da Tuppence, começaram a ir comigo para casa uns volumes brancos, fininhos, de poesia, que estavam sempre disponíveis na biblioteca (nunca ninguém os requisitava?) e uns maiorzinhos, que traziam consigo a vida e o calor de outra parte do mundo.

Assim segui, num dos meus primeiros livros de "gente crescida" a complicada mas fascinante saga dos Buendía, através de cem anos de soledad. E assim me encantei por Gabo e, por inerência, por mais alguns autores que conseguem transmitir as cores, os sons, os odores da literatura latino-americana.

E assim descobri Eugénio de Andrade. E descobrir Eugénio com 14/15 anos é algo de fascinante. O poder evocativo das palavras, as sensações que ansiamos por descobrir e vemos ali, no papel; e como fazem eco na persona que vamos construindo e em que nos vamos tornando. E os poemas que líamos com os olhos arregalados, com a inocência, o desejo e a curiosidade. E a forma como há sempre um conjunto de palavras dele, um poema, que se encaixa em determinados momentos da nossa vida, como se tivesse conseguido, a priori, fazer um instantâneo dessa ocasião. E as palavras. A importância das palavras.

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém - mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

São três, quatro palavras. Pouco mais.

2 comentários:

Anónimo disse...

A propósito de Agatha Christie, convido você e a todos para conhecerem dois blogs recém-lançados...

A Casa Torta: O Mundo de Agatha Christie
http://acasatorta.wordpress.com

Cinema é Magia
http://cinemagia.wordpress.com

Um abraço.

Anónimo disse...

todas as páginas de um livro são marcadas pela força dos dedos. pela sensação de as palavras se entranharem na carne.

saudades.

um abraço.

João
osdiasdasnoites.