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pre.liminares. (II)

começa com um olhar. curiosamente tímido. tão curiosamente tão tímido para alguém como nós. tão adulto em tantas línguas. continuam as palavras a fazer conversa entre si. as tuas. as minhas. as nossas [aquelas às quais já demos algum sentido especial, seja em que dialecto for]. pegas-me nas mãos e olhas atentamente os meus dedos [o pretexto já o tinha adivinhado - como é que eu sabia que irias reparar nisso - mas é curioso sentir os meus dedos suspensos dos teus]. puxas-me o brinco verde ao de leve entre duas inspirações. e entre silêncios e sons, brincas com a ponta do meu cachecol listado e dizes que é o meu favorito. eu aceno e penso que [observador] se calhar até tens razão. e brinco com a colher do café para não reparares no ligeiro tremor dos dedos. ( I )

i can picture...

comecei a fotografar para não perder o que [vi]via. transformava muitas coisas em palavras. mas nada dizia tanto da doçura de um olhar como um retrato, da vida de uma cidade como um instantâneo. sempre julguei que nunca iria esquecer determinadas coisas. as ruas da minha infância [que já não encontro por vezes no mesmo sítio]. o padrão dos azulejos da cozinha da minha avó [quebrado por alguns substitutos dissonantes]. o meu jardim secreto noutras paragens [onde passeava, longe tão longe, tão perto de mim]. as noites longas. mas cada vez que os vejo guardados por mim descubro emoções [esquecidas?]. não quero viver em [de?] imagens, mas quero ver para além delas o que já vivi. ontem apeteceu-me fotografar-te. não que tenha medo de me esquecer do teu rosto, mas porque sei que, tal como o primeiro beijo, a primeira vez que descobri que quando sorris ficas com covinhas nas bochechas é irrepetível.

r[ab]iscos

um atraso de meia hora. e eu que chego sempre cedo de mais. da mala tiro um livro, uma caneta e o mp3. a banda sonora do Once no eco da Noiva Judia do Pedro Paixão, enquanto espero por ti. aos poucos deixo de olhar para o relógio. esqueço o ecrã luminoso das chegadas. e o tempo passa, rápido. muito. risco um guardanapo com palavras soltas que vão surgindo. e outro. e um terceiro. daqui a pouco estás aqui. senti a tua falta. tanta. mas também senti falta do tempo passar assim, ao som das letras rabiscadas no papel e dos acordes. tanta falta.

conforto.

abro um dos livros que volto a trazer na carteira e dele cai uma folha para o chão. no topo esquerdo está escrito "sentimos o silêncio. e não nos incomoda...". e lembro-me pelas reticências que queria ter escrito mais. que queria ter explicado como o silêncio não intimida. não fica retido entre nós como um fantasma. que as palavras não são contidas. transpiramo-las naturalmente como gotas de suor. que por isso a sua ausência não é pesada. inspiramos e expiramos [n]as pausas delas. despimo-nos de tudo. de segundas intenções. de temores. de máscaras. despimo-nos [um ao outro] pelas palavras. e até quando nos despimos delas não nos sentimos nus.

(a) caminho.

posso não conseguir carregar contigo aos ombros porque és maior do que eu e nem ao David pediram para andar com o Golias às costas. agora como diz ali o Boss, se ficares para trás acredita que desacelero para me conseguires alcançar. em troca só espero que nessa tua pressa de chegares sempre a algum lado repares se não tropecei numa raíz mais saliente e me ajudes a levantar. sabes que ao contrário de ti trouxe para este percurso todos os mapas que tinha no baú. os dos caminhos já percorridos e os dos caminhos a evitar [cujos trilhos de certo modo se sobrepõem]. e as indicações meio confusas do território ainda não marcado. e por ser uma pessoa previdente [e se o que nos interessa é, além do destino, a viagem] muni-me de duas bússolas. uma vem na mala, a indicar o ponto de chegada. a outra [que vai mostrando o melhor rumo] guardei bem juntinho do coração. é do equilibrio das duas que vou escolhendo o percurso. não te admires se por vezes só te disser "direita" ou "esquerd...

sim(ples). (II)

começas por usar frases grandiloquentes repletas de lugares-comuns para me convencer de que sim tens uma predilecção especial pela minha companhia. keep it simple, digo-te eu. se demoras mais do que um minuto a explicar que gostas do calor do sol na tua pele quando tiveres acabado de falar já ele arrefeceu. uma noite seguras-me na mão e dizes-me quase num sussurro: sinto-me bem a teu lado. e o mais simples que consigo é responder-te com um sorriso.

memory lane.

saímos assim para o frio da noite. antes de qualquer outro movimento abotoo a gabardine até ao queixo e faço uma dobra complicada no lenço por cima dela. puxo-te o fecho do casaco até cima enquanto ajeitas melhor o teu cachecol. ficamos parados por uns segundos até que me decido. vem comigo. vou mostrar-te a minha infância. no silêncio do escuro só se ouvem os meus passos pelas ruas que conheço há mais dias do que os que já vivi. e tu a meu lado pé com pé, mão com mão. a noite entra-nos em humidade pelos poros. e nós diluimo-nos nela em baforadas de ar quente. virar à esquerda. à esquerda. depois à direita. os paralelos da entrada da rua sempre saídos. já é feitio. da esquina aponto-te aquela casa grande. as portas cor de morango maduro. e como se intuísses algo moves-me dois milímetros para mais perto de ti. em dez passadas estamos lá. digo-te que deixei uma parte de mim naquela casa. num certo dia de um certo mês de um certo ano. aponto para as duas janelas mais próximas de nós. a s...

poderia.

poderia falar dos teus dedos. poderia descrever o teu sorriso embaraçado. poderia dizer que os teus olhos são dois miúdos traquinas. na verdade prefiro esperar que o leias em mim.

a quatro mãos.

ela fazia-lhe perguntas estranhas. ele queixava-se da dificuldade mas oferecia sempre mais um bocadinho de si nas suas respostas. ela fazia malabarismo com a clareza e a duplicidade das palavras. ele sugeria escalas e pedia-lhe quantificações de sentidos. ela sorria com a maneira como ele enrolava o "h" no início das sílabas. ele reparou no verniz imperfeito do indicador direito dela. ele queria apreciar a vista do último degrau. ela avisou-o de que quanto mais alto se sobe, mais dói o trambolhão. ele disse-lhe que não a deixava cair. [ela respirou fundo.]

um. brilhozinho.nos olhos.

tenho sorrisos que batem [fundo] das palavras que ecoam cá dentro [beijos] do teu coração que te escapa pelos dedos [longos] em gestos que traduzem os batimentos [doces] que o teu coração não consegue [ainda] dizer ao meu [........] tenho palavras a brotarem-me dos dedos. tenho sorrisos a brotarem-me da alma. [com um brilhozinho nos olhos a pairar-me nos lábios desde o concerto do Sérgio Godinho. hoje soube-me a tanto. portanto hoje soube-me a pouco]

dú.vida. (II)

e eu confesso que fico pasmada. com a confiança. e a insegurança. e o imediatismo. e a paciência. e o charme maduro. e o brilho travesso. e a calma. e o nervosismo. e a páginas tantas nem sei se estou a falar de mim ou de ti. porque bambeamos ambos nesta corda quando estamos um com o outro.

pre.liminares. (I)

abres a porta do restaurante para eu passar. afastas a cadeira ligeiramente, e voltas a encostá-la depois de me sentar. dás a volta à mesa e sentas-te à minha frente olhando-me pela primeira vez nos olhos. a ementa treme-te ligeiramente nas mãos (não sou só eu que estou nervosa?), mas quando me perguntas o que quero e fazes o pedido ao empregado já pareces seguro de ti como sempre. enquanto a comida não vem falamos daquilo que na brincadeira já tínhamos alinhavado como temas de conversa. trabalho. tempo. rubores. eu que sou mais calada fico por momentos quieta (eu não te avisei que isso poderia acontecer?) e tu fazes o que prometeste: ficas a olhar-me tempos infindos, até que não consigo senão soltar uma gargalhada e atirar-te com o guardanapo. sim, acho que foi uma boa maneira de quebrar o gelo...

futil.idades

dizes que tens de começar a ter cuidado quando me perguntas detalhes sobre determinada situação do dia anterior e eu te respondo com uma fiel descrição da apresentação de x e das palavras comprometedoras de y mas surpreendes-me ao dizeres com toda a convicção que gosto de castanho, de cachecóis e que o meu verniz na quarta-feira tinha uma falha na unha do indicador da mão direita. e eu que sempre pensei que os homens não reparassem tanto nisso, mas à cautela mantive o dedo bem escondido na manga do casaco, just in case. estando habituada a ser a parte observadora de qualquer diálogo sinto-me por momentos debaixo de um microscópio. tenho de ter cuidado, sou eu que penso desta vez. acabas a conversa a fazer-me confidências as quais esperas que se mantenham secretas e dizes que só as fazes porque confias em mim. coro e agradeço-te a confiança. mas só consigo pensar que tenho de ter as unhas bem pintadas da próxima vez que estiver contigo.

pecado.

alimentavam-se das histórias alheias, do que supunham adivinhar num olhar, num gesto. escrevi eu por aqui um dia destes. dei-te isto a ler. o desafio velado. esquadrinhas bem alguém. de certeza. pelo que diz. ou faz. o desafio directo. então lê-me. o que viste tu nas linhas do meu rosto hoje? (d)escrevi-te. isto. e isto. e mais aquilo. e talvez isto. assustador, disseste tu. assustador? sim. certo. e certo. e certo. e reparas na mais pequena palavra. é a vantagem, de se ser uma boa ouvinte, respondi eu. (ou uma falante tímida, esqueci-me de acrescentar). então tenho de ter muito cuidado com o que digo. não precisas, respondi. eu não sou má pessoa. [mas não te confessei. o meu maior pecado. que é sorver(-te) as palavras. e surripiá-las para aqui].