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A mostrar mensagens com a etiqueta (no) coração
  saudades. das cortinas sempre brancas. do pátio sempre caiado. dos metais a reluzir. do louro pendurado no fio da roupa. do morango-forte do portão. das passadeiras de trapos da cozinha. da tua mão. das palavras [que me faltam cada vez mais...].                                                                                                                                                                            #12setembros            ...
E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos    E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por vezes ao tomarmos o gosto aos oceanos só o sarro das noites      não dos meses lá no fundo dos copos encontramos E por vezes sorrimos ou choramos E por vezes por vezes ah por vezes num segundo se evolam tantos anos David Mourão-Ferreira [september is the saddest month]

a continuação.

e entra setembro e eis que nunca dele saí. e penso em tudo o que te queria ter mostrado, em tudo o que te queria ter dito, e em cada setembro que passa. e penso que passa tão rápido, mas dói ainda tanto, como se cada dia acrescentasse um grama de pressão sobre o meu coração. e já passaram tantos dias. e dói ainda tanto. e tenho um peso tão grande cá dentro. as memórias de tudo o que não te disse. de tudo o que já não pudeste ouvir. fazes-me tanta falta.

medo.

volto muitas vezes à tua rua. só que cada vez mais é cada vez menos a tua, a nossa rua. quero dizer-te tudo ao mesmo tempo e o que te quero dizer corre mais do que eu posso, corre muito mais do que eu quero. as tuas portas, sempre cor de morango maduro, a descascar, brancas como a cal que usavas no pátio, e o pátio, o pátio está verde como as folhas de louro que tinhas nos fios da roupa, e os fios da roupa, esses estão por um fio. e tentei espreitar para o pátio [rodei o trinco, e fez aquele barulho, sabes] e rodou, e abriu. e existe agora um cadeado prateado, esse bem reluzente, a segurar o portão. lembro-me de tudo menos do cadeado. e esse zomba agora, brilhante e forte, de tudo o que me lembro. e eu queria espreitar porque me sentia forte [não há maior fantasma do que o da ausência, e esse já o conheço], e queria espreitar porque me sentia pequenina [e faltava a tua mão na minha]. tenho cada vez mais medo de não ter nada mais do que memórias para transmitir.

metade.

é subir a rua, girar o puxador do portão, empurrá-lo com a mão na parte de cima. dá tanto jeito ser alta. sabes que quando o pintas ele emperra, e ajuda se o empurrar. e eu sou alta, noto-o quando chego ao pé de ti. dantes tinha de me pôr em bicos de pés, agora curvo-me. curvo-me para te abraçar. e as minhas costas ficam assim curvas como a metade de um coração, sabes? e hoje continuo a curvar-me para te abraçar. e quero empurrar o portão e entrar. e eu que sou alta, volto a pôr-me em bicos de pés. e sei que o portão já não emperra, e não tento girar o puxador. mas as minhas costas continuam a ficar assim curvas como a metade de um coração. [I know you're there]

feliz.idade.

tenho tantas tantas saudades. do natal.

a continuação.

vês como o tempo passa. ainda ontem era setembro, aquele vento leve que começa a tingir as folhas de vermelho anunciava-se. ainda se sentia o calor do verão e aqui o verão consegue ser mesmo sufocante enquanto que na minha rua sopra de vez em quando o cheiro a mar. ainda ontem era setembro quando pegaste na minha mão e não a querias largar. a minha ainda estava quente mas a tua escaldava. cada lágrima que caía quase se evaporava antes de tocar nela. eu lembro-me. não falei contigo mas senti cada palavra que me disseste em surdina. o teu ritmo cardíaco como código morse. eu lembro-me. quis dizer-te que sim, que também te amava como da primeira vez que te vi. que serias sempre a menina que dormia junto a mim nas noites de verão. lembras-te delas? eu lembro-me. vês como passa o tempo. ainda ontem era verão, ainda ontem era setembro e o setembro já voltou. se fechar os olhos sinto os raios do verão decrescente e o vento a dançar em redor deles. se fechar os olhos sinto a tua mão outra vez ...

memory lane.

saímos assim para o frio da noite. antes de qualquer outro movimento abotoo a gabardine até ao queixo e faço uma dobra complicada no lenço por cima dela. puxo-te o fecho do casaco até cima enquanto ajeitas melhor o teu cachecol. ficamos parados por uns segundos até que me decido. vem comigo. vou mostrar-te a minha infância. no silêncio do escuro só se ouvem os meus passos pelas ruas que conheço há mais dias do que os que já vivi. e tu a meu lado pé com pé, mão com mão. a noite entra-nos em humidade pelos poros. e nós diluimo-nos nela em baforadas de ar quente. virar à esquerda. à esquerda. depois à direita. os paralelos da entrada da rua sempre saídos. já é feitio. da esquina aponto-te aquela casa grande. as portas cor de morango maduro. e como se intuísses algo moves-me dois milímetros para mais perto de ti. em dez passadas estamos lá. digo-te que deixei uma parte de mim naquela casa. num certo dia de um certo mês de um certo ano. aponto para as duas janelas mais próximas de nós. a s...

my boys and girls.

1. os vossos pézinhos já cresceram. passaram poucos meses, mas os vossos abraços já subiram um palmo em mim. tinha saudades vossas, boys e girls, tinha tantas saudades vossas. 2. sim, mariana [num abraço daqueles teus apertados] também eu queria, minha querida, também eu queria tanto. 3. claro que me lembro do teu nome, íris. a menina mais ciosa do acento no sítio certo do seu nome que conheci [a seguir a mim, claro :)]. 4. tu deixavas-nos ligar-te e desligar-te . oh bea, quem te ouvir dizer isto... 5. continuas o mesmo, menino dos olhos cor do céu, continuas o mesmo. 6. andré, só te queria dizer que tenho a tua foto no fundo do meu computador do trabalho. fazes-me sorrir sempre que o ligo. 7. nenhum de vocês vai ler isto. mas sei que sabem que gosto muito de vocês. 8. obrigada, meninos. obrigada a todos. 9. [agora deixem-me só ir ali buscar um kleenex].

quando era natal.

quando era pequena íamos buscar musgo para fazer o presépio. era tarefa nossa, minha e tua. uma folha grande de papel pardo a proteger a alcatifa. camadas irregulares a desenhar vales e colinas. da prateleira mais alta do armário retirávamos caixas de linha âncora 6 branca presas com fita cola. com cuidado desembrulhávamos os restos de jornal e colocávamos as figuras em fila indiana. uma sem cabeça, outra sem cajado, dois reis magos inteiros e um estropiado, apesar da cautela do ano anterior. ali ficavam todas, silenciosas, à espera da guia de marcha para uma ou outra encosta. o estábulo. a estrela. um fio de luzes coloridas a serpentear à volta. a árvore já era tarefa só minha. tanto decorá-la como comer às escondidas os chocolates que lá eram pendurados por outras mãos. e voltar a dar forma (oca) à prata dos sinos e das pinhas. para que ninguém reparasse. quando era pequena do que eu mais gostava era do final da tarde do dia 24. as vossas vozes na cozinha, as vossas mãos a prepara...

[intermezzo] (I)

1. um beijo. de parabéns. do tamanho do mundo. para o primeiro homem. da minha vida. o meu pai. só não conseguiu que fosse do benfica. de resto partilhamos as mesmas paixões. e o mesmo temperamento :) 2. yes, we can . acredito. quero acreditar (num mundo melhor). porque tenho pessoas a quem dou beijos do tamanho do mundo. e o mundo tem de começar a valer os beijos que dou. 3. e porque acredito em sonhos. e acredito em pessoas que acreditam em sonhos. e acredito que pessoas que acreditam em sonhos merecem sempre ser felizes. espero que sim. 4. d., és capaz de ser responsável pelo piropo mais surreal. que recebi nos últimos tempos. é bom ler-te de volta, mon ami :) .... o blog segue no seu formato habitual dentro de momentos .....

o fim. o inicio.

Acabou o meu verão. Acabaram as férias (de infância). Não por este ano mas para o resto desta vida. Fui há duas semanas a casa da minha avó. Chorei ao abrir a porta da despensa. E comparar o que vi com a imagem que tenho no meu computador. Os tachos continuavam reluzentes, mas faltava vida a tudo. Sentia-se uma aridez, um frio tremendo. Como se com a morte dela tudo aquilo em que ela tocava normalmente se tivesse resignado, deixado estagnar. A embaciar de dor. Nada diz mais que uma pessoa morreu do que abrir, escancarar os móveis que dantes se abriam, devagarinho, sem fazer barulho e para onde se espreitava com a curiosidade ingénua das crianças. Separar posses. Distribui-las por sacos plásticos. Virar gavetas do avesso. Desmembrar guarda-fatos... Sempre senti aquela casa como se fosse parte de mim. Conheço-a de cor. Cada rebordo, cada canto, cada esquina. Lembro-me daquelas noites quentes de Verão (sim, quando era criança o verão ainda era quente) em que o vento sapateava pela rua do ...