pontes de vista.

quarta-feira, outubro 22, 2008

Em dois posts seguidos este senhor (que gosto imenso de ouvir e pelo qual saio sempre uns minutinhos mais cedo da aula da manhã para o "apanhar" ainda em linha) fala de três dos meus filmes favoritos, que contêm em si referências a três paixões: fotografia, cinema, poesia (literatura).

De um destes filmes são as primeiras citações que coloquei ali na minha "ever-updating" barra lateral de preferidos: "As Pontes de Madison County".

E diz o escriba:

Confesso que não me lembro muito bem das Pontes de Madison County. Das brumas saem as ditas, que achei belíssimas, o meu querido Clint, último e fiel depositário de um certo cinema e tipo de actor, o desempenho intocável de Meryl e a sua mão crispada na porta de um automóvel.

"A" cena ... o momento que nos toca a todos, acompanhando como vimos a acompanhar o encantamento crescente dos dois, os toques, a luz, o encontro dos corpos.

Deve ser difícil encontrar quem, caso se tenha sentido tocado pelo filme, não tenha encarnado numa ou noutra personagem: quem não tenha sentido a chuva a escorrer-lhe pelo rosto, enquanto franzia os olhos para olhar, guardar na sua memória (fotográfica) a mulher que, a dois passos, contempla pela última vez ... ou quem, num espaço recolhido, familiar, definido, mas circundado pela indefinição, sem contornos, pelo embaciamento causado pela chuva (que o toca a ele, mas não a ela) crispa a mão na porta enquanto pesa e avalia e decide...


Juízos de valor? Fazemos sempre. Opiniões a favor? Temos, não é possível evitar. Não conseguimos não ter, tal como não resistimos a encantar-nos com tudo o que esteja relacionado com as nossas mais secretas, mais intimas, mais humanas, mais frágeis aspirações. Os filmes que nos ficam mais na memória são sempre aqueles que nos oferecem a imensa potencialidade cinematográfica de uma paixão sumptuosa, de um amor (seja qual for a sua forma), de nos ser dado tudo incluindo a escolha dilacerante entre as várias partes de nós.

O fulcro da questão é o habitual... - deixar ou não um amor tranquilo por uma paixão avassaladora. Em trinta anos de profissão ouvi descrever as duas decisões e os trajectos subsequentes. Há quem fique por cobardia, pelos outros, por considerar que a paixão não resistirá ao quotidiano e um dia se assemelhará ao afecto deixado para trás. Há quem descubra não estar talhado(a) para a vida de casal, embora tenha pressionado o outro para o (a) seguir. Muitos dos julgamentos de valor a que assistimos partem do pressuposto que viver a paixão à custa de tudo o resto é quase uma "obrigação ética". Não concordo e a História também não. Acho perfeitamente legítimo resistir às consequências práticas de uma paixão e aos 58 já percebi que somos muito injustos para o amor tranquilo, chegamos a confundi-lo com monotonia e desistência!

Concordo consigo, caro professor, em discordar desse pressuposto. Não será mais emocionante abrir a porta, correr, através da chuva, de encontro a quem, estático, se nos oferece? Sem dúvida. E era neste ponto que o filme acabava. Dir-se-ia "they lived happily ever after", apareceriam os créditos, a música do final...Mas como na vida real, não há paixão que por si própria resista, sem amor, sem o calor do conhecimento, não existe paixão que, posta à prova pela realidade, pela rotina, não se desvaneça e nos decepcione.
A paixão pode ser eterna. Como memória. De outra forma desgasta-se. O amor é eterno. Como realidade.

Ela diz a certa altura que foi pela lembrança dele que conseguiu permanecer na quinta tanto tempo. Admissão de que cometeu um erro? Não. Também é pela esperança de concretizarmos os nossos sonhos que vivemos cada dia, sejam eles pequenos, enormes, materiais ou espirituais... É por carregarmos connosco memórias de pessoas que passaram pela nossa vida, que nos sentimos acompanhados, parte de algo maior do que nós. É por relembrar momentos que vivemos, que descobrimos quem somos e o que queremos.

Não serão as Pontes mais um exemplo da tradição ocidental de considerar
perfeitos apenas os amores interrompidos por morte ou distância.

Sem dúvida. Por isso se trata de um óptimo filme. E de um péssimo manual de vida.

0 comentários: