chave.

sábado, novembro 15, 2008

procuro a chave do baú pelas gavetas da escrivaninha. sempre escondi as coisas que me resguardam nos sítios mais improváveis. tão incertos que nem eu própria lhes encontro o rasto. a calma transforma-se em ânsia. os dedos inquietos amarfanham, abrem, reviram, retorcem. encontro-a no meio de clips coloridos. tão habilmente escondida. ou tão banal(izada) como eles. clic. rodo-a no cadeado. desliza muito mais ligeira do que os meus sentidos. inspiro. das colunas sai a thunder road em repeat mode: you can hide 'neath your covers, and study your pain, make crosses from your lovers, throw roses in the rain. expiro. e abro a tampa. só queria guardar as coisas que me ficaram de ti. o primeiro batimento cardíaco precipitado. a primeira palavra surpreendida. a primeira nudez envergonhada. (as últimas já não me pertencem. as últimas não pertencem a ninguém). ali. num instante fico rodeada de sorrisos amarelecidos e palavras rasgadas. there were ghosts in the eyes, of all the boys you sent away. o chão um mar de papéis esfacelados, sentimentos cansados, gestos fora do prazo de validade. e eu a flutuar. tento separar cada capítulo. ordenar. lembro-me das palavras de alguém numa noite. de como as histórias da nossa vida se fundem. por mais que as tentemos conter. num espaço e tempo. desisto. e junto-te às outras. fecho a tampa. guardo a chave numa caixa de agrafos. respiro fundo. a tempo de ouvir os acordes finais. and i'm pulling out of here to win.

11 comentários:

bf disse...

Há chaves que devíamos deitar fora. Por uma questão de sanidade. Por uma questão de justiça. Ou engoli-las. Assim, dentro de nós, nossas seriam para sempre, sem que voltássemos a abrir os baús...
E sim, quem sou eu para o dizer?

Brida disse...

tens razão, bf. mas até acredito que um dia não seja a chave que se deite fora, mas o baú inteiro... por já não ser preciso.

Nandita disse...

Muitas vezes tenho de me lembrar que não preciso de deitar esses baús fora (porque das vezes que o fiz, Brida, arrependi-me), só tenho de esperar pelo dia em que eles tomam o seu lugar, discretos, como a recordação necessária e terna dos nossos muitos passados.
Vais dar conta um dia que pensar no baú não te dá ânsias, vê-lo não te vai fazer respirar depressa, nos pensamentos das frases não ditas, ou das coisas não resolvidas. Vais apenas olhá-lo e dizer "é o meu baú, o meu passado", e afagarás ternamente a sua fechadura, com um sorriso de memória nos lábios...

É isto que eu tenho andado a tentar fazer a alguns dos meus baús... uns demoram mais, outros menos, outros tenho ainda de os abrir e remexer uma ultima vez, em gestos descoordenados e ainda incrédulos, mas sei que vai funcionar.

Beijo, bom fim de semana, menina :)

Nandita

Brida disse...

nandita, eu só tenho um baú (olha se tivesse mais a confusão que não seria andar à procura das chaves :)) para lá vão todas as histórias, todas as memórias. as físicas, palpáveis, as escritas e as recordadas. e vão para lá quando estão resolvidas (daí a ânsia de lá as colocar), quando não acrescentam nem retiram nada ao meu dia-da-dia. e por lá se misturam (eu ia jurar que até trocavam confidências umas com as outras). sei que um dia o vou poder abrir com um sorriso de memória nos lábios, como dizes. sei porque acredito que haverá pelo menos uma história que não precisará de lá ser colocada.

Beijo, Dobru noc (?) :) e um bom fim de semana para ti também :)

acoldzero disse...

e fernando pessoa escreveu uma vez:

" ... pedras no sapato? guardo todas! um dia vou construir um castelo. "

eu sou um bocado assim.
errata
eu sou demasiado assim.
guardo tudo. guardo demasiado. carrego demasiado o peso das memorias e perco-me entre o 'sou' e o 'fui'. entre o 'era' e o 'é'. mas é obsessivo-compulsivo. as coisas têm uma história. as pessoas têm uma história. eu tenho uma história. e nessa história há caminhos e trilhos que se cruzam. eu só não consigo parar de deixar marcas nos seus rastos.


...e depois penso.é pior... eu vivo do meu baú..

Brida disse...

acoldzero,
também já vivi muito do baú, do "fui", "era". neste momento tento não viver muito do futuro, do "serei", "será". e encontrar-me no "sou", "é". por alguma razão isso (o presente) sempre me pareceu o mais difícil de fazer.

acoldzero disse...

sim é um facto. o presente. o aqui e o agora, diria o meu amigo Walter Benjamin. É o mais dificil de encontrar. O ponto de equilibrio. o Feng Shui... eu tambem tento. mas com menos sucesso. *

Anónimo disse...

falámos do tudo.

deixámos iluminar uma parte da noite. e a outra. deixámos sossegada. não lhe quisemos sequer tocar. dividimos a metade de nós em metade de negro. na metade em que a ausência de cor se faz notar. nas coisas. e falámos de tudo.

depois. de esgotarmos as palavras e os gestos. sossegámos inertes. e nunca nos encontrámos mais. naquele lugar.

tão sós. que tivemos de inventar a noite sem que a ausência de cor. se fizesse notar nas coisas. para que ninguém nos visse. com os olhos a brilhar.

joao.
osdiasdasnoites

Brida disse...

joão,

as tuas palavras conseguem deixar-me (sempre) em silêncio :)

aoutrarua@gmail.com disse...

a primeira nudez envergonhada. (as últimas já não me pertencem. as últimas não pertencem a ninguém).

"Stay with me now\ We'll be thieves around our flesh\ Tomorrow will be different\ Will be just shadows in your bed"
Thieves - More república Masónica
(Se não conheces, ouve!!)

Brida disse...

menina da outrarua :)
não conheço, mas despertaste-me a curiosidade :)