há quem diga.

sexta-feira, novembro 07, 2008


há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em estar desocupado. ou em não estar ocupado por ti. é estranho, mas o certo é que, desde que saíste de casa, o gladíolo voltou a florir. o dia amanhece mais radioso, ou os vidros das janelas a nascente parecem mais transparentes do que quando tu as abrias de par em par. perdeu-se o som dos teus passos a subir a escada, dobrar a esquina e abrir a porta do quarto com a impaciência dos eternos insones. mas, no silêncio que cobre cada canto, seja no bulício do dia ou no sossego da noite, ouvem-se rumores de vida a renascer. a aldraba da porta não cessa de bater por dedos amigos que trazem no olhar palavras de outrora. juro-te que até os livros que tínhamos colocado na estante de canto ao lado da lareira se meneiam encantados quando ninguém está por perto. não sei por onde andas, só sei que de teu na tua poltrona favorita só ficou a suave linha do braço direito para onde tombavas quando adormecias e a foto que nela te tirei um dia e que me fizeste prometer nunca mostrar a ninguém. hoje peguei num bloco de notas, numa das canetas mais suaves que tenho, sentei-me no teu lugar e recordei palavras que não acariciava desde que te beijei pela primeira vez. há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em não estar ocupado por ti. e eu, desde que reencontrei palavras que tinham estado adormecidas há demasiado tempo em mim, começo a concordar.

3 comentários:

bf disse...

A vida é mesmo assim. Brutal. Como as palavras. E as imagens que delas brotam!

Anónimo disse...

lembro-me quando se comia das palavras. todos os desejos de ser. de beijar e de queimar os dias. lembro-me da fome que ficava. depois.

quando já não havia palavras.

um abraço.

joão
osdiasdasnoites

(diria. que está tudo escrito.)

Anónimo disse...

Muito bonito este texto. De uma profundida arrasadora... conseguida através de uma simplicidade das palavras, que se encaixam aqui na perfeição.
Bj
Guinevere