memory lane.

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

saímos assim para o frio da noite. antes de qualquer outro movimento abotoo a gabardine até ao queixo e faço uma dobra complicada no lenço por cima dela. puxo-te o fecho do casaco até cima enquanto ajeitas melhor o teu cachecol. ficamos parados por uns segundos até que me decido. vem comigo. vou mostrar-te a minha infância. no silêncio do escuro só se ouvem os meus passos pelas ruas que conheço há mais dias do que os que já vivi. e tu a meu lado pé com pé, mão com mão. a noite entra-nos em humidade pelos poros. e nós diluimo-nos nela em baforadas de ar quente. virar à esquerda. à esquerda. depois à direita. os paralelos da entrada da rua sempre saídos. já é feitio. da esquina aponto-te aquela casa grande. as portas cor de morango maduro. e como se intuísses algo moves-me dois milímetros para mais perto de ti. em dez passadas estamos lá. digo-te que deixei uma parte de mim naquela casa. num certo dia de um certo mês de um certo ano. aponto para as duas janelas mais próximas de nós. a sala. e vejo os vidros embaciados. como se houvesse vida lá dentro. ou a casa respirasse por si. rodo um bocadinho para a direita e digo baixinho [ainda não sei como conseguiste ouvir] ali é o pátio. e no silêncio da rua ia jurar ter ouvido um clac. o trinco. um rrrrrr. a abrir devagarinho. e sinto que me abandonam as palavras. olho de uma ponta à outra da rua. uma eternidade num segundo. e de novo em frente. e sinto as palavras a afastarem-se cada vez mais. respiro fundo. e tu abraças-me mais forte. viro os meus passos para o início da rua. e tu demoras por uns segundos os teus, silenciosos. a tentar perceber se tinha ficado mais um bocadinho de mim naquela casa. ou se tinha vindo mais um bocadinho dela em mim.


- faz hoje 5 meses, vó. e nunca vou deixar de ter saudades tuas.
- thank you for being there with me, in this stroll down memory lane.

10 comentários:

MS disse...

e qd sonhas, n voltas a estar nessa casa? eu nunca consegui sair da minha...

Rapunzel disse...

=) Kido! Não foi tossir nem assobiar! Fiquei só com um sorriso! **

M disse...

:) Brida, escreve mais para nós, sim? :)

diana disse...

Os lugares por onde passamos ficam com pedaços de nós. E esse lugar deve ser mesmo especial... conseguiste transmiti-lo por palavras.

Brida disse...

@MS
sim, volto. e também sonho muitas vezes acordada.

@Rapunzel
:)) eu também. daqueles, sabes? :)

@M
eu vou tentando, menina :)

@diana
é especial, diana. pra mim é se calhar o lugar mais especial de todos :)

beijinhos pra todas

acoldzero disse...

gostei. eu tenho dificuldade em encontrar a minha infancia. provavelmente porque estou numa luta num outro degrau, e a infancia ficou meio atordoada lá atrás. mas faz-me falta. faz-me muita falta. e gosto da fotografia. faz-me lembrar "casa". não sei onde tiraste essa foto, mas onde vivia com os meus pais também se parecia com essa foto. as ruas, as casas...

*

Brida disse...

@acoldzero
:) a foto é da rua que descrevo. é em Ílhavo. a que vai ser sempre a "minha rua", a rua das minhas férias de verão, que é muito mais a rua símbolo da infância por não ser a de todos os dias mas a dos dias longos, das noites quentes, das férias grandes, da família...acredito que te faça falta. é com esta rua e com esta casa que sonho, como respondia ali à MS. e tu sonhas com qual? :)
**

Nandita disse...

Estranho... a minha avó fazia anos em fim de Janeiro, e dei por mim a recordá-la aqui, estes dias. Sabes quando as memórias te batem fundo no coração, na cabeça, te fazem cócegas na nuca? Senti-o no autocarro, nestes dias mais frios, porque todas estas senhoras, estas velhinhas que resistiram ao comunismo e a tudo o que mais viesse, me lembram demasiado dela. Com as faces enrugadas, a pele macia, o ar frágil. Muitas de preto,como ela. De saia, e avental e lenço, como ela. E todas com o ar de serenidade e força que sempre lhe conheci. Diferentes como de certeza imaginas (estamos no Leste, tudo consegue ser tão diferente aqui), mas ao mesmo tempo capazes de me levar a casa, nos meus minutos de viagens de autocarro.
Ainda bem que acarinhas as tuas memórias, obrigada por as partilhares de modo tão bonito. Ajudas-me a estar em casa, também.
Beijo (já disse que vou a Portugal, já, já??) :)

Paulo T Pires disse...

sem dúvida alguma, há locais que nos prenderão para sempre, e a tua narrativa capta-a com uma gráfica realidade...

Brida disse...

@Nandita
sei, essas memórias. que arrepiam. por serem as minhas tão parecidas com as tuas parecidas com as minhas :) eu é que agradeço as tuas palavras.
ainda não tinhas dito, menina, mas desta vez vais-me aturar :D
beijo

@Paulo
real. sempre. ainda bem que o lês assim. escrevo o que sinto o que escrevo :)