Avançar para o conteúdo principal

Mensagens

se tanto me dói.

uma geração que se apaga. sinto-me, cada vez mais, muito longe das minhas memórias.

linhas.

havendo ausência das escritas, que haja pelo menos abundância das fotografadas. (sei que tenho saudades das duas)

medo.

volto muitas vezes à tua rua. só que cada vez mais é cada vez menos a tua, a nossa rua. quero dizer-te tudo ao mesmo tempo e o que te quero dizer corre mais do que eu posso, corre muito mais do que eu quero. as tuas portas, sempre cor de morango maduro, a descascar, brancas como a cal que usavas no pátio, e o pátio, o pátio está verde como as folhas de louro que tinhas nos fios da roupa, e os fios da roupa, esses estão por um fio. e tentei espreitar para o pátio [rodei o trinco, e fez aquele barulho, sabes] e rodou, e abriu. e existe agora um cadeado prateado, esse bem reluzente, a segurar o portão. lembro-me de tudo menos do cadeado. e esse zomba agora, brilhante e forte, de tudo o que me lembro. e eu queria espreitar porque me sentia forte [não há maior fantasma do que o da ausência, e esse já o conheço], e queria espreitar porque me sentia pequenina [e faltava a tua mão na minha]. tenho cada vez mais medo de não ter nada mais do que memórias para transmitir.

metade.

é subir a rua, girar o puxador do portão, empurrá-lo com a mão na parte de cima. dá tanto jeito ser alta. sabes que quando o pintas ele emperra, e ajuda se o empurrar. e eu sou alta, noto-o quando chego ao pé de ti. dantes tinha de me pôr em bicos de pés, agora curvo-me. curvo-me para te abraçar. e as minhas costas ficam assim curvas como a metade de um coração, sabes? e hoje continuo a curvar-me para te abraçar. e quero empurrar o portão e entrar. e eu que sou alta, volto a pôr-me em bicos de pés. e sei que o portão já não emperra, e não tento girar o puxador. mas as minhas costas continuam a ficar assim curvas como a metade de um coração. [I know you're there]

twenty.ten.

fecho a antiga. azul manchada de tinta no canto esquerdo. o elástico bambo do uso. as páginas cheias de rabiscos. já copiei os aniversários. já anotei algumas reuniões. o final do ano lectivo. já passei listas de coisas que ficaram por fazer. [é mais uma continuação do que um re-início] uma página para cada dia [gosto de agendas grandes] e tanto espaço em branco... um bom 2010 para todos .... .... que saibamos escrever as suas páginas da melhor maneira.

pre.liminares. (II)

começa com um olhar. curiosamente tímido. tão curiosamente tão tímido para alguém como nós. tão adulto em tantas línguas. continuam as palavras a fazer conversa entre si. as tuas. as minhas. as nossas [aquelas às quais já demos algum sentido especial, seja em que dialecto for]. pegas-me nas mãos e olhas atentamente os meus dedos [o pretexto já o tinha adivinhado - como é que eu sabia que irias reparar nisso - mas é curioso sentir os meus dedos suspensos dos teus]. puxas-me o brinco verde ao de leve entre duas inspirações. e entre silêncios e sons, brincas com a ponta do meu cachecol listado e dizes que é o meu favorito. eu aceno e penso que [observador] se calhar até tens razão. e brinco com a colher do café para não reparares no ligeiro tremor dos dedos. ( I )