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Mensagens

poderia.

poderia falar dos teus dedos. poderia descrever o teu sorriso embaraçado. poderia dizer que os teus olhos são dois miúdos traquinas. na verdade prefiro esperar que o leias em mim.

da minha língua vê-se o mar.

tenho um quotidiano confusa e claramente plurilingue. digo bom dia em inglês, respondo sem pensar a uma pergunta em espanhol com uma interjeição alemã. um segundo depois lá consigo recuperar a calma e a palavra mais adequada para o interlocutor em questão. uma conversa em português é perfeitamente complementada com expressões familiares em francês e surgindo determinados comentários em inglês o registo muda sem darmos quase por isso. no meio de tudo istp há conversas curiosas sobre as palavras, as línguas, a forma como elas se nos insinuam, a intensidade com que o fazem: talvez isso te tocasse mais se fosse dito na tua língua... não, não acho. já me disseram coisas semelhantes noutras línguas. o que importa é o que se diz, não tanto a língua que se usa. desde que se entenda. mas, na verdade, fica-me a dúvida. será mesmo assim?

[intermezzo] (VI).

1. ando completa, arrebatada e perdidamente viciada nesta versão da If I should fall behind do Boss com a E-Street... [ e o Clarence a cantar .... ] ... you and I know what this world can do so let's make our steps clear that the other may see and I'll wait for you if I should fall behind wait for me ...

eu. pecadora.

a M. desafiou. e eu não resisto a desafios :) então aqui vai a definição dos pecados mortais sugerida: gula: comer a toda a hora e/ou além do necessário avareza: cobiça de bens materiais e/ou dinheiro inveja: desejar atributos, status, posses e/ou habilidades de outra pessoa ira: é a junção dos sentimentos de raiva, rancor e ódio. por vezes é incontrolável soberba: falta de humildade, alguém que se acha auto-suficiente luxúria: apego aos prazeres carnais preguiça: aversão a qualquer trabalho ou esforço físico e a minha relação com os referidos :) gula um ferrero rocher. mordiscar ao de leve o exterior e deixar a língua brincar com o recheio . uma fatia de ananás acabadinha de cortar. fresca e levemente ácida, o sumo a escorrer. uma sopa de peixe caseira. o barulho dos quadradinhos de pão torrado estaladiços. um pastel de natal enorme. cremoso, faz cócegas na língua. avareza tenho mais olhos para comprar livros do que tempo para os ler. cobiço ardente e fervorosamente os que ainda não...

a quatro mãos.

ela fazia-lhe perguntas estranhas. ele queixava-se da dificuldade mas oferecia sempre mais um bocadinho de si nas suas respostas. ela fazia malabarismo com a clareza e a duplicidade das palavras. ele sugeria escalas e pedia-lhe quantificações de sentidos. ela sorria com a maneira como ele enrolava o "h" no início das sílabas. ele reparou no verniz imperfeito do indicador direito dela. ele queria apreciar a vista do último degrau. ela avisou-o de que quanto mais alto se sobe, mais dói o trambolhão. ele disse-lhe que não a deixava cair. [ela respirou fundo.]

eu.já.

eu já... amei em mais de uma língua escorreguei e caí na neve morei em mais de um país apareci no jornal chorei até me doer o peito ri até ficar com soluços cantei num coro fui amada sem amar amei alguém sem ter a coragem de lho confessar deixei queimar um bolo assisti a alguém morrer copiei num teste roí as unhas implorei tive uma exposição de fotografia chorei no cinema confiei fui a melhor em alguma coisa aprendi a escrever da direita para a esquerda fui a muitos concertos seguidos do mesmo cantor ganhei prémios desconfiei soube de coisas e agi como se não soubesse fiz coisas de que me arrependi me arrependi de não fazer coisas peguei num livro e só o pousei depois de ter lido todas as suas 300 páginas roubei menti andei à chuva até ficar ensopada amei na rua odiei estive em 3 países diferentes em dois segundos ... ...e parece-me que ainda fiz tão pouco. [a febre desta lista de "já" já passou... mas eu gostei do desafio...]

espera.dor.

olhas através da vida como através de uma janela. contentas-te em ser espectador porque o papel de actor te parece trabalhoso demais. e traz consigo demasiados riscos. conformaste-te com tudo. o leite meio frio do pequeno-almoço quando não o tinham deixado ferver e demoravas a levantar-te; a meia amizade do João quando tinhas 14 anos e ele disse à Luísa que gostava dela, depois de tu lhe teres confessado que só conseguias ver os seus olhos ao adormecer, ao acordar; o abraço morno da tua namorada, não demasiado gélido para te congelar, mas quente de menos para te aquecer. no fundo, no fundo ainda sonhas vir a ser aquilo de que mais gostavas de te disfarçar no carnaval quando pequeno: super-homem. uma vida apagada. e, num rodopiar mágico, o homem mais forte do mundo. na verdade, na verdade sabes que nunca irás encontrar a tua cabine telefónica para mudar de pele.