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adágio.

[acompanhar com Barber's ...]
  • Adágio for Strings


  • os primeiros acordes espalham-se como neblina pela sala. alastram pela casa vazia. de olhos fechados (nunca o ouviu de outro modo) toma-a de assalto. a mão direita vai ondeando segura com movimentos leves pelo ar. conhece todos os passos, antecipa-se a cada crescendo. a esquerda aperta ainda a chávena de chá fumegante. por dentro das pálpebras vai surgindo uma curta metragem surda. dedos. maçãs verdes. mãos. tapetes. olhos. palavras. dentes. livros. almofadas. cálices. jogos. sonhos. sombras. recorda-se de ler que só nos lembramos do amor e de paixões deste modo assim, fragmentário. [00'12''] memórias do primeiro beijo, aquele a sério que torna as pernas bambas e o estômago num furacão de borboletas. [00'40''] indefinidas e confusas recordações de homens que a tomaram. memórias de homens a quem amou, uma primeira vez na distância [01'17''], e uma segunda vez na proximidade [03'52'']. o vapor do chá vai subindo (faz cócegas no nariz) ao mesmo tempo que a mão direita se continua a elevar ao som da música. [05'11''] "tu", numa exclamação de surpresa que leva os seus dedos bem acima da linha da sua face. o único, de todos os homens que a tocaram, que nunca lhe pediu nada em troca. para além das suas mãos. e por isso lhe deu tudo e nada. num momento.


    [07'05''] pausa. presente. a mão suspensa no ar.


    e que por isso se tornou charneira. entre o passado e um futuro [07'13''] que usa os mesmos acordes porque ela não sabe viver de outra forma. [10'17''] abre os olhos. e o tom verde neles é, desta vez, simplesmente de esperança. nos dias. e em quem eles trouxerem.

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