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pre.liminares. (II)

começa com um olhar. curiosamente tímido. tão curiosamente tão tímido para alguém como nós. tão adulto em tantas línguas. continuam as palavras a fazer conversa entre si. as tuas. as minhas. as nossas [aquelas às quais já demos algum sentido especial, seja em que dialecto for]. pegas-me nas mãos e olhas atentamente os meus dedos [o pretexto já o tinha adivinhado - como é que eu sabia que irias reparar nisso - mas é curioso sentir os meus dedos suspensos dos teus]. puxas-me o brinco verde ao de leve entre duas inspirações. e entre silêncios e sons, brincas com a ponta do meu cachecol listado e dizes que é o meu favorito. eu aceno e penso que [observador] se calhar até tens razão. e brinco com a colher do café para não reparares no ligeiro tremor dos dedos. ( I )

(a) caminho.

posso não conseguir carregar contigo aos ombros porque és maior do que eu e nem ao David pediram para andar com o Golias às costas. agora como diz ali o Boss, se ficares para trás acredita que desacelero para me conseguires alcançar. em troca só espero que nessa tua pressa de chegares sempre a algum lado repares se não tropecei numa raíz mais saliente e me ajudes a levantar. sabes que ao contrário de ti trouxe para este percurso todos os mapas que tinha no baú. os dos caminhos já percorridos e os dos caminhos a evitar [cujos trilhos de certo modo se sobrepõem]. e as indicações meio confusas do território ainda não marcado. e por ser uma pessoa previdente [e se o que nos interessa é, além do destino, a viagem] muni-me de duas bússolas. uma vem na mala, a indicar o ponto de chegada. a outra [que vai mostrando o melhor rumo] guardei bem juntinho do coração. é do equilibrio das duas que vou escolhendo o percurso. não te admires se por vezes só te disser "direita" ou "esquerd...

sim(ples). (II)

começas por usar frases grandiloquentes repletas de lugares-comuns para me convencer de que sim tens uma predilecção especial pela minha companhia. keep it simple, digo-te eu. se demoras mais do que um minuto a explicar que gostas do calor do sol na tua pele quando tiveres acabado de falar já ele arrefeceu. uma noite seguras-me na mão e dizes-me quase num sussurro: sinto-me bem a teu lado. e o mais simples que consigo é responder-te com um sorriso.

poderia.

poderia falar dos teus dedos. poderia descrever o teu sorriso embaraçado. poderia dizer que os teus olhos são dois miúdos traquinas. na verdade prefiro esperar que o leias em mim.

a quatro mãos.

ela fazia-lhe perguntas estranhas. ele queixava-se da dificuldade mas oferecia sempre mais um bocadinho de si nas suas respostas. ela fazia malabarismo com a clareza e a duplicidade das palavras. ele sugeria escalas e pedia-lhe quantificações de sentidos. ela sorria com a maneira como ele enrolava o "h" no início das sílabas. ele reparou no verniz imperfeito do indicador direito dela. ele queria apreciar a vista do último degrau. ela avisou-o de que quanto mais alto se sobe, mais dói o trambolhão. ele disse-lhe que não a deixava cair. [ela respirou fundo.]

espera.dor.

olhas através da vida como através de uma janela. contentas-te em ser espectador porque o papel de actor te parece trabalhoso demais. e traz consigo demasiados riscos. conformaste-te com tudo. o leite meio frio do pequeno-almoço quando não o tinham deixado ferver e demoravas a levantar-te; a meia amizade do João quando tinhas 14 anos e ele disse à Luísa que gostava dela, depois de tu lhe teres confessado que só conseguias ver os seus olhos ao adormecer, ao acordar; o abraço morno da tua namorada, não demasiado gélido para te congelar, mas quente de menos para te aquecer. no fundo, no fundo ainda sonhas vir a ser aquilo de que mais gostavas de te disfarçar no carnaval quando pequeno: super-homem. uma vida apagada. e, num rodopiar mágico, o homem mais forte do mundo. na verdade, na verdade sabes que nunca irás encontrar a tua cabine telefónica para mudar de pele.

um. brilhozinho.nos olhos.

tenho sorrisos que batem [fundo] das palavras que ecoam cá dentro [beijos] do teu coração que te escapa pelos dedos [longos] em gestos que traduzem os batimentos [doces] que o teu coração não consegue [ainda] dizer ao meu [........] tenho palavras a brotarem-me dos dedos. tenho sorrisos a brotarem-me da alma. [com um brilhozinho nos olhos a pairar-me nos lábios desde o concerto do Sérgio Godinho. hoje soube-me a tanto. portanto hoje soube-me a pouco]

dú.vida. (II)

e eu confesso que fico pasmada. com a confiança. e a insegurança. e o imediatismo. e a paciência. e o charme maduro. e o brilho travesso. e a calma. e o nervosismo. e a páginas tantas nem sei se estou a falar de mim ou de ti. porque bambeamos ambos nesta corda quando estamos um com o outro.

pre.liminares. (I)

abres a porta do restaurante para eu passar. afastas a cadeira ligeiramente, e voltas a encostá-la depois de me sentar. dás a volta à mesa e sentas-te à minha frente olhando-me pela primeira vez nos olhos. a ementa treme-te ligeiramente nas mãos (não sou só eu que estou nervosa?), mas quando me perguntas o que quero e fazes o pedido ao empregado já pareces seguro de ti como sempre. enquanto a comida não vem falamos daquilo que na brincadeira já tínhamos alinhavado como temas de conversa. trabalho. tempo. rubores. eu que sou mais calada fico por momentos quieta (eu não te avisei que isso poderia acontecer?) e tu fazes o que prometeste: ficas a olhar-me tempos infindos, até que não consigo senão soltar uma gargalhada e atirar-te com o guardanapo. sim, acho que foi uma boa maneira de quebrar o gelo...

im.paciências.

o avião galga os últimos metros até à porta 71. ponto de paragem. ainda antes do aviso do comandante já os passageiros impacientes desapertam os cintos e abrem os compartimentos superiores. só o do lugar 20 C espera. que todos saiam. levanta-se ao ralenti. põe a mala do computador ao ombro e sai, despedindo-se das hospedeiras. uma breve olhadela ao ecrã. dirige-se à banda 3 para levantar a sua mala. pausa. longa. ainda demora muito ? pergunta um menino dos seus 8 anos. deve estar aí a aparecer , diz a mãe, um tique nervoso no olhar. um, dois soluços e a bagagem começa a surgir. o passageiro do lugar 20 C encosta-se a um pilar e traça uma perna sobre a outra. mala a mala vão desaparecendo as pessoas pelo corredor. surge a sua. sem movimentos bruscos, pega-lhe e começa a rolar lentamente para a saída. as portas opacas abrem-se. olha brevemente, vira à esquerda, pára. em câmara lenta pousa a pasta do computador no chão, larga a mala. e desagua todo o nervosismo, toda a impaciência, toda ...

futil.idades

dizes que tens de começar a ter cuidado quando me perguntas detalhes sobre determinada situação do dia anterior e eu te respondo com uma fiel descrição da apresentação de x e das palavras comprometedoras de y mas surpreendes-me ao dizeres com toda a convicção que gosto de castanho, de cachecóis e que o meu verniz na quarta-feira tinha uma falha na unha do indicador da mão direita. e eu que sempre pensei que os homens não reparassem tanto nisso, mas à cautela mantive o dedo bem escondido na manga do casaco, just in case. estando habituada a ser a parte observadora de qualquer diálogo sinto-me por momentos debaixo de um microscópio. tenho de ter cuidado, sou eu que penso desta vez. acabas a conversa a fazer-me confidências as quais esperas que se mantenham secretas e dizes que só as fazes porque confias em mim. coro e agradeço-te a confiança. mas só consigo pensar que tenho de ter as unhas bem pintadas da próxima vez que estiver contigo.

sauda.de.

saudade Lat. solitate, com influência de saudar s. f. , lembrança triste e suave de pessoas ou coisas distantes ou extintas, acompanhada do desejo de as tornar a ver ou a possuir; nostalgia. acho que sempre tive saudades tuas. mesmo quando não me lembrava de ti.

somos.

abro o livro que trago na mala numa página a três quartos da capa e leio algo sobre as certezas de sabermos quem somos na madrugada que construímos. com as nossas mãos e os silêncios entre as nossas palavras. e penso em todos os momentos em que me fiz depender das palavras de outrem. nas esperas por aquelas que só surgiam em momentos de fragilidade alheia. nos excessos de zelo que tornaram outras banais. nos silêncios gastos por tanta inquietude. nas mãos [o que mais recordo das pessoas que se cruzam comigo são as mãos. gosto de mãos. do que fazem. mais ainda do que poderiam fazer se cumprissem as promessas que trazem em si. ] que deixaram as minhas vazias. não dando nada. nem o seu calor. neste segundo em que me perco pela janela e sinto, mais do que vejo, o cair da noite sobre o caminho, penso em todas as palavras que não me foram ditas senão a custo ou repetidas até à exaustão. nos silêncios que a ausência delas poluiu. nas mãos repletas de toques sempre rasgados. e sei que não ire...

nas linhas. a teus pés.

saltas, balanças, fazes bailar os teus pés entre claro e escuro. a tua vida tem sido provavel e agradavelmente linear, sem as curvas bruscas ou inclinações acentuadas que marcam estações de dor. brincas com a geometria da vida, sem te deteres por mais tempo do que o necessário em qualquer dos seus momentos. aprendeste bem cedo a imprescindível arte do equilíbrio. parabéns, miúdo! o futuro? está à tua frente, desculpa não to poder mostrar... mas desejo que continues sempre assim. que os pretos nunca sejam demasiado escuros e os brancos não te encadeiem demais. não queremos que percas o teu percurso de vista não é? obrigada por este momento :) [Dortmund, 17.06.2005]

anda morder-me. o coração.

do lado oposto da sala, fitas com interesse um ponto ligeiramente acima do meu ombro esquerdo. [os teus olhos acariciam o contorno de um pescoço, de um colo emoldurado a preto e branco]. do lado oposto da sala fechas o livro que tens na mão, pousa-lo com cuidado no braço do sofá. [algumas palavras ficam agarradas. levar-te . aos dedos. à boca . ] do lado oposto da sala cruzas a perna direita por cima da esquerda com ar indolente. [retesam-se os músculos das tuas coxas. todas as tuas terminações nervosas em alerta] do lado oposto da sala fixas o teu olhar ocioso nos meus dedos nervosos. [e esticas os teus devagar, para deles disfarçar a inquietude] do lado oposto da sala dizes anda, anda morder-me o coração. e o outro lado da sala oposto ficou. de repente. no lado oposto. da sala. (a frase anda, anda morder-me o coração lida em Morder-te o coração , de Patrícia Reis.)

pecado.

alimentavam-se das histórias alheias, do que supunham adivinhar num olhar, num gesto. escrevi eu por aqui um dia destes. dei-te isto a ler. o desafio velado. esquadrinhas bem alguém. de certeza. pelo que diz. ou faz. o desafio directo. então lê-me. o que viste tu nas linhas do meu rosto hoje? (d)escrevi-te. isto. e isto. e mais aquilo. e talvez isto. assustador, disseste tu. assustador? sim. certo. e certo. e certo. e reparas na mais pequena palavra. é a vantagem, de se ser uma boa ouvinte, respondi eu. (ou uma falante tímida, esqueci-me de acrescentar). então tenho de ter muito cuidado com o que digo. não precisas, respondi. eu não sou má pessoa. [mas não te confessei. o meu maior pecado. que é sorver(-te) as palavras. e surripiá-las para aqui].

branduras.

eu calo. tu calas. nas pausas falam(-nos) os brandos gestos.

(problema de) expressão.

[sabias que]. naquele tempo a tua voz tinha um tom difuso. as palavras eram algo trocistas. como se não fossem suficientemente claras. para o que querias dizer de ti. nos silêncios sempre te ouvi melhor. nos silêncios a língua que não falávamos era nossa. [sabes que]. hoje a tua voz arrisca novos sons. numa língua (tão tua) e noutra (só minha). entre as tuas palavras que entretanto aprendi. e as minhas que agora, cada vez mais, recordas. deixemos as línguas falar no silêncio por nós.

coração.

.... seguindo o teu raciocínio de como a língua portuguesa funciona, coração seria máquina de amar .... [...faz sentido. quando lhe pomos pouco amor é um desperdício de energia, quando lhe metemos amor a mais é uma sobrecarga...]