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espera(nça)

" não esperes " começava o bilhete " que sinta sempre um aperto no peito, o medo de te perder. não esperes grandes cenas de ciúmes, gestos aflitivos, noites sem dormir. dou-te o que é meu, as minhas mãos, palavras e sentidos. mas também a calma de quem (agora) sabe os seus limites. não esperes que para chegar até ti tenha de ir tão além de mim que já seja outrem. não esperes que eu seja mais fraca do que sou ou mais forte do que alguma vez irei conseguir ser. não esperes (mais) nada. e eu dou-me (a ti) em tudo." ele pousou-o e sorriu. e disse muito baixinho "também gosto muito de ti"

r[ab]iscos

um atraso de meia hora. e eu que chego sempre cedo de mais. da mala tiro um livro, uma caneta e o mp3. a banda sonora do Once no eco da Noiva Judia do Pedro Paixão, enquanto espero por ti. aos poucos deixo de olhar para o relógio. esqueço o ecrã luminoso das chegadas. e o tempo passa, rápido. muito. risco um guardanapo com palavras soltas que vão surgindo. e outro. e um terceiro. daqui a pouco estás aqui. senti a tua falta. tanta. mas também senti falta do tempo passar assim, ao som das letras rabiscadas no papel e dos acordes. tanta falta.

conforto.

abro um dos livros que volto a trazer na carteira e dele cai uma folha para o chão. no topo esquerdo está escrito "sentimos o silêncio. e não nos incomoda...". e lembro-me pelas reticências que queria ter escrito mais. que queria ter explicado como o silêncio não intimida. não fica retido entre nós como um fantasma. que as palavras não são contidas. transpiramo-las naturalmente como gotas de suor. que por isso a sua ausência não é pesada. inspiramos e expiramos [n]as pausas delas. despimo-nos de tudo. de segundas intenções. de temores. de máscaras. despimo-nos [um ao outro] pelas palavras. e até quando nos despimos delas não nos sentimos nus.

as palavras. (VII)

sozinha no [meu] sossego do quarto sinto as palavras a redemoinhar à minha volta. vou-as apanhando uma a uma, aconchegando-as em ramalhetes simples, o mais simples possível. chamam-me da sala, onde as palavras dos outros me fazem, por momentos, esquecer a ordem das minhas. pego na caneta e só consigo escrever [vazio]. ponho as minhas coisas debaixo do braço e a meio do corredor já as sinto [às palavras], em pézinhos de lã, a voltarem comigo [para mim].

da minha língua vê-se o mar.

tenho um quotidiano confusa e claramente plurilingue. digo bom dia em inglês, respondo sem pensar a uma pergunta em espanhol com uma interjeição alemã. um segundo depois lá consigo recuperar a calma e a palavra mais adequada para o interlocutor em questão. uma conversa em português é perfeitamente complementada com expressões familiares em francês e surgindo determinados comentários em inglês o registo muda sem darmos quase por isso. no meio de tudo istp há conversas curiosas sobre as palavras, as línguas, a forma como elas se nos insinuam, a intensidade com que o fazem: talvez isso te tocasse mais se fosse dito na tua língua... não, não acho. já me disseram coisas semelhantes noutras línguas. o que importa é o que se diz, não tanto a língua que se usa. desde que se entenda. mas, na verdade, fica-me a dúvida. será mesmo assim?

as palavras. (VI)

à custa de andar sempre à procura de talões, recibos, papéis e papelinhos para escrever comprei um caderno. metade liso, metade pautado. tamanho ideal [cabe milimetricamente na mala]. que sei que pouco irei usar. à custa de andar à procura de papéis pela carteira quando finalmente os encontro as palavras já estão maduras. caem sem custo na folha. encolhem-se em letras minúsculas para melhor se acomodarem entre a referência do produto e o IVA. o espaço e meio destas linhas [e o espaço livre destas meias páginas] causam-nos [ainda] o assombro de nem elas nem eu nos sentirmos maduras o suficiente para nos espraiarmos por ali.

as palavras. (III)

um dia disse isto: acho que os meus momentos de decisão são marcados por coisas que escrevo. pode parecer estúpido mas tem sido assim... e responderam-me: nao é nada estúpido! é assim mesmo... e eu fiquei a pensar: e se algum dia me faltam (as) palavras? (para quem está tão habituada a sentir com elas)

as palavras. (I)

Sê paciente; espera que a palavra amadureça e se desprenda como um fruto ao passar o vento que a mereça. Sempre tive livros. A minha família (pais, primas, tios..) teve, em vários natais e aniversários, a brilhante ideia de me entregar uns embrulhos, muito bem feitos, de cantos direitinhos e bem definidos que, sem surpresas, deixavam adivinhar o seu conteúdo (um livro) mas abriam todo um mundo de possibilidades: será um livro de quem? sobre quê? e as personagens? que aventuras conta? Também herdei vários livros das minhas primas (eu sou a mais nova, é natural que acabasse por herdar muita coisa :)) deixados ao acaso em casa da minha avó. O que encontrei devorei sempre com sofreguidão. Acompanhei as peripécias da Anita , as aventuras d' Os Cinco e d' Os Sete , as desventuras da Cláudia , segui as gémeas, o Chico, o João e o Pedro n' Uma Aventura de cada vez. Um dos meus livros favoritos da adolescência ainda ocupa um lugar de destaque no meio do caos organizado que é o meu ...