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há quem diga.


há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em estar desocupado. ou em não estar ocupado por ti. é estranho, mas o certo é que, desde que saíste de casa, o gladíolo voltou a florir. o dia amanhece mais radioso, ou os vidros das janelas a nascente parecem mais transparentes do que quando tu as abrias de par em par. perdeu-se o som dos teus passos a subir a escada, dobrar a esquina e abrir a porta do quarto com a impaciência dos eternos insones. mas, no silêncio que cobre cada canto, seja no bulício do dia ou no sossego da noite, ouvem-se rumores de vida a renascer. a aldraba da porta não cessa de bater por dedos amigos que trazem no olhar palavras de outrora. juro-te que até os livros que tínhamos colocado na estante de canto ao lado da lareira se meneiam encantados quando ninguém está por perto. não sei por onde andas, só sei que de teu na tua poltrona favorita só ficou a suave linha do braço direito para onde tombavas quando adormecias e a foto que nela te tirei um dia e que me fizeste prometer nunca mostrar a ninguém. hoje peguei num bloco de notas, numa das canetas mais suaves que tenho, sentei-me no teu lugar e recordei palavras que não acariciava desde que te beijei pela primeira vez. há quem diga que o lugar que escolheste deixar só se honra em não estar ocupado por ti. e eu, desde que reencontrei palavras que tinham estado adormecidas há demasiado tempo em mim, começo a concordar.

Comentários

bf disse…
A vida é mesmo assim. Brutal. Como as palavras. E as imagens que delas brotam!
Anónimo disse…
lembro-me quando se comia das palavras. todos os desejos de ser. de beijar e de queimar os dias. lembro-me da fome que ficava. depois.

quando já não havia palavras.

um abraço.

joão
osdiasdasnoites

(diria. que está tudo escrito.)
Anónimo disse…
Muito bonito este texto. De uma profundida arrasadora... conseguida através de uma simplicidade das palavras, que se encaixam aqui na perfeição.
Bj
Guinevere

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as palavras. (VII)

sozinha no [meu] sossego do quarto sinto as palavras a redemoinhar à minha volta. vou-as apanhando uma a uma, aconchegando-as em ramalhetes simples, o mais simples possível. chamam-me da sala, onde as palavras dos outros me fazem, por momentos, esquecer a ordem das minhas. pego na caneta e só consigo escrever [vazio]. ponho as minhas coisas debaixo do braço e a meio do corredor já as sinto [às palavras], em pézinhos de lã, a voltarem comigo [para mim].

chave.

procuro a chave do baú pelas gavetas da escrivaninha. sempre escondi as coisas que me resguardam nos sítios mais improváveis. tão incertos que nem eu própria lhes encontro o rasto. a calma transforma-se em ânsia. os dedos inquietos amarfanham, abrem, reviram, retorcem. encontro-a no meio de clips coloridos. tão habilmente escondida. ou tão banal(izada) como eles. clic. rodo-a no cadeado. desliza muito mais ligeira do que os meus sentidos. inspiro. das colunas sai a thunder road em repeat mode: you can hide 'neath your covers, and study your pain, make crosses from your lovers, throw roses in the rain . expiro. e abro a tampa. só queria guardar as coisas que me ficaram de ti. o primeiro batimento cardíaco precipitado. a primeira palavra surpreendida. a primeira nudez envergonhada. (as últimas já não me pertencem. as últimas não pertencem a ninguém). ali. num instante fico rodeada de sorrisos amarelecidos e palavras rasgadas. there were ghosts in the eyes, of all the boys you sent a...

feliz.na.vida[d].

e ... eis que este blog também adere à animação versão natalícia lançada pela thunderlady . e só apareço aqui assim, porque a rapunzel diz que é a minha spitting image : um cachecol ou lenço, a máquina sempre por perto. e os livros (conheço pelo menos uma pessoa que acharia que o mundo estava a acabar se eu não tivesse um livro) perguntam vocês? lembram-se de falar não há muito tempo de embrulhos de cantos muito regulares que deixavam adivinhar o que continham? ah pois. hoje já recebi o primeiro. e inesperado. [thanks ;)]. se a imagem pudesse falar desejar-vos-ia felicidade. hoje, amanhã, no natal, no próximo ano. como não pode, desejo-vos eu por escrito :)