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espera.dor.



olhas através da vida como através de uma janela. contentas-te em ser espectador porque o papel de actor te parece trabalhoso demais. e traz consigo demasiados riscos. conformaste-te com tudo. o leite meio frio do pequeno-almoço quando não o tinham deixado ferver e demoravas a levantar-te; a meia amizade do João quando tinhas 14 anos e ele disse à Luísa que gostava dela, depois de tu lhe teres confessado que só conseguias ver os seus olhos ao adormecer, ao acordar; o abraço morno da tua namorada, não demasiado gélido para te congelar, mas quente de menos para te aquecer. no fundo, no fundo ainda sonhas vir a ser aquilo de que mais gostavas de te disfarçar no carnaval quando pequeno: super-homem. uma vida apagada. e, num rodopiar mágico, o homem mais forte do mundo. na verdade, na verdade sabes que nunca irás encontrar a tua cabine telefónica para mudar de pele.

Comentários

MS disse…
como conheço alguém assim, para quer tudo como eu, não são boa companhia de viajem ...
Anónimo disse…
viver pela metade... é viver? ou sobreviver?
(adorei o texto...)
Anónimo disse…
eu já me dava contente por encontrar a minha pele primeiro. a cabine vinha depois.
Malu disse…
também conheço alguém assim

aqui escreves claramente do meu amor

aquele por que espero

na mesma dor

bj

malu

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as palavras. (VII)

sozinha no [meu] sossego do quarto sinto as palavras a redemoinhar à minha volta. vou-as apanhando uma a uma, aconchegando-as em ramalhetes simples, o mais simples possível. chamam-me da sala, onde as palavras dos outros me fazem, por momentos, esquecer a ordem das minhas. pego na caneta e só consigo escrever [vazio]. ponho as minhas coisas debaixo do braço e a meio do corredor já as sinto [às palavras], em pézinhos de lã, a voltarem comigo [para mim].

chave.

procuro a chave do baú pelas gavetas da escrivaninha. sempre escondi as coisas que me resguardam nos sítios mais improváveis. tão incertos que nem eu própria lhes encontro o rasto. a calma transforma-se em ânsia. os dedos inquietos amarfanham, abrem, reviram, retorcem. encontro-a no meio de clips coloridos. tão habilmente escondida. ou tão banal(izada) como eles. clic. rodo-a no cadeado. desliza muito mais ligeira do que os meus sentidos. inspiro. das colunas sai a thunder road em repeat mode: you can hide 'neath your covers, and study your pain, make crosses from your lovers, throw roses in the rain . expiro. e abro a tampa. só queria guardar as coisas que me ficaram de ti. o primeiro batimento cardíaco precipitado. a primeira palavra surpreendida. a primeira nudez envergonhada. (as últimas já não me pertencem. as últimas não pertencem a ninguém). ali. num instante fico rodeada de sorrisos amarelecidos e palavras rasgadas. there were ghosts in the eyes, of all the boys you sent a...

feliz.na.vida[d].

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